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Aquiles Lins

Aquiles Lins é colunista do Brasil 247, comentarista da TV 247 e diretor de projetos especiais do grupo.

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Fim da escala 6x1: governo Lula e trabalhadores enfrentam centrão e mídia escravocrata

Redução da jornada sem corte salarial requer protagonismo de Lula e enfrentamento à resistência conservadora no Congresso e na mídia

Mobilização contra a escala 6x1 (Foto: Letycia Bond/Ag. Brasil)

O fim da escala 6x1 precisa ser afirmado como conquista direta dos trabalhadores brasileiros. A redução da jornada semanal, sem diminuição de salários, consolidou-se como uma das principais bandeiras do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e carrega décadas de mobilização sindical e social. O momento exige clareza política: não basta administrar o debate, é necessário conduzi-lo com firmeza e posicioná-lo no campo dos direitos sociais.

Ao longo da história, cada avanço trabalhista enfrentou resistência semelhante. A limitação da jornada, o descanso semanal remunerado e as férias foram tratados como ameaças à economia antes de se tornarem pilares da legislação. A discussão atual segue essa lógica. Garantir dois dias de descanso por semana significa assegurar convivência familiar, cuidado com a saúde e acesso à vida social. A pauta dialoga diretamente com milhões de brasileiros submetidos a rotinas exaustivas.

No Congresso, entretanto, o cenário impõe obstáculos. O presidente da Câmara, Hugo Motta, optou por encampar uma proposta de emenda constitucional e designou como relator na CCJ o deputado Paulo Azi, integrante de um partido que abriga setores contrários ao fim da 6x1. A escolha desloca o eixo de condução da matéria e amplia o espaço para alterações que podem enfraquecer o conteúdo original defendido por parlamentares como Erika Hilton, uma das vozes mais ativas na defesa da redução da jornada sem corte salarial.

A tramitação por meio de PEC também eleva o quórum necessário e retira a possibilidade de veto presidencial, exigindo articulação mais intensa com partidos de centro e direita. Setores empresariais já se movimentam para adiar a votação e pressionam contra mudanças que afetem custos trabalhistas. O ambiente político revela que a disputa não é apenas técnica; envolve correlação de forças e projeto de país.

Nesse contexto, Lula precisa puxar o debate para a esquerda e assumir o protagonismo público da proposta. A redução da jornada deve ser apresentada como política de distribuição de riqueza e de tempo, compatível com ganhos de produtividade acumulados nas últimas décadas. A narrativa não pode ser defensiva. É necessário afirmar que crescimento econômico e valorização do trabalho caminham juntos.

Parte da mídia corporativa tem atuado para moldar a percepção pública de forma desfavorável. Reportagem da Folha de S.Paulo afirmou que o brasileiro trabalha menos que a média mundial e sugeriu que não seria “particularmente esforçado”. A ministra Gleisi Hoffmann reagiu com contundência: “Reservar pelo menos dois dias por semana para cuidar da família e da própria vida é um direito que a Folha não quer reconhecer e ainda por cima tenta estigmatizar como preguiça”. Ela também questionou: se a média mencionada é de 40,1 horas semanais, qual o impedimento para reduzir a jornada legal de 44 para 40 horas?

O enfrentamento dessa narrativa é parte central da disputa política. Associar a redução da jornada à preguiça desconsidera a realidade de milhões de trabalhadores que enfrentam longos deslocamentos, jornadas extensas e múltiplos vínculos. A defesa do fim da 6x1 deve dialogar com essa experiência concreta e fortalecer a mobilização social em torno da proposta.

A conquista do fim da escala 6x1 dependerá da capacidade de organização da base social do governo e da disposição de Lula em liderar esse movimento com nitidez ideológica. Quando o Executivo assume posição clara e mobiliza a sociedade, o Congresso responde à pressão democrática. Transformar essa pauta em vitória concreta significará reafirmar que desenvolvimento econômico precisa caminhar com ampliação de direitos e valorização do trabalho.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.