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Jeffrey Sachs

Professor da Columbia University (NYC) e Diretor do Centro para o Desenvolvimento Sustentável e Presidente da Rede de Soluções Sustentáveis da ONU. Ele tem sido um conselheiro de três Secretários-Gerais da ONU e atualmente serve como Defensor da iniciativa para Metas de Desenvolvimento Sustentável sob o Secretário-Geral da ONU, António Guterres.

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O ataque ilegal dos EUA e de Israel ao Irã também é um ataque às Nações Unidas

Sejamos claros sobre o que os Estados Unidos e Israel estão buscando. O objetivo dos EUA não é a segurança do povo americano

Pessoas marcham após o assassinato do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, em ataques israelenses e americanos, em Basra, Iraque, 1º de março de 2026 (Foto: REUTERS/Mohammed Aty)

Por Jeffrey Sachs & Sybil Fares

Em 16 de fevereiro de 2026, um de nós (Jeffrey Sachs) enviou uma carta ao Conselho de Segurança da ONU alertando que os Estados Unidos estavam prestes a rasgar a Carta das Nações Unidas. O alerta agora se concretizou. Estados Unidos e Israel lançaram uma guerra não provocada contra o Irã, em flagrante violação do Artigo 2(4) da Carta, sem autorização do Conselho de Segurança e sem qualquer reivindicação legítima de autodefesa nos termos do Artigo 51. Estão tentando destruir a Carta da ONU e o direito internacional, mas não terão sucesso.

No Conselho de Segurança, em 28 de fevereiro de 2026, os EUA e seus aliados direcionaram suas condenações não contra a agressão americana e israelense, mas contra o Irã. Um aliado dos EUA após o outro condenou os ataques retaliatórios iranianos, deixando de condenar o ataque ilegal e não provocado dos EUA e de Israel contra o Irã. A postura desses países foi vergonhosa e inverteu completamente a realidade.

Os ataques conjuntos foram descritos pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como necessários porque o Irã “rejeitou todas as oportunidades de renunciar às suas ambições nucleares, e não podemos mais tolerar isso”. Isso, afirmam os autores, é uma mentira. Segundo a carta de 16 de fevereiro, o Irã concordou há uma década com o acordo nuclear conhecido como Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), adotado pelo Conselho de Segurança na Resolução 2231. Foi Trump quem abandonou o acordo em 2018. Em junho de 2025, Israel bombardeou o Irã em meio a negociações entre Washington e Teerã. Desta vez, segundo o texto, os planos de guerra já estavam definidos semanas antes, quando o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu se reuniu com Trump, e as negociações em curso teriam sido uma encenação.

Os autores argumentam que é fácil compreender por que aliados dos EUA agiram de forma constrangedora no Conselho de Segurança. Além dos próprios Estados Unidos, oito dos outros 14 membros do Conselho abrigam bases militares americanas ou concedem acesso a instalações locais: Bahrein, Colômbia, Dinamarca, França, Grécia, Letônia, Panamá e Reino Unido. Esses países, segundo o artigo, não seriam plenamente soberanos, pois as bases abrigam operações da CIA e seus governos evitariam contrariar Washington para impedir interferências internas.

Como afirmou Henry Kissinger, citado no texto, “pode ser perigoso ser inimigo da América, mas ser seu amigo é fatal”. Os autores acrescentam que hospedar bases militares e operações da CIA transforma um país em Estado vassalo.

Como exemplo, mencionam a atuação da embaixadora da Dinamarca, que teria repetido os argumentos dos EUA ao apontar o Irã como agressor, ignorando que o país havia sido atacado. O texto afirma ainda que tal postura poderia ter implicações para a Dinamarca caso os EUA ocupem a Groenlândia.

Segundo o artigo, as vozes consideradas fiéis aos fatos no Conselho vieram de países não alinhados a Washington. A Rússia teria argumentado que o chamado Ocidente estaria culpando a vítima ao acusar o Irã. A China recordou que a crise começou com os ataques dos EUA e de Israel, e não com a retaliação iraniana. A Somália, falando em nome de países africanos, apontou a origem da escalada. O representante da Liga dos Estados Árabes atribuiu a agressão israelense à negação de direitos ao povo palestino e às ações militares que, segundo ele, impedem o surgimento de um Estado palestino.

O texto sustenta que, ao retaliar contra bases militares americanas no Golfo, o Irã estaria exercendo seu direito inerente de autodefesa previsto no Artigo 51 da Carta. Também afirma que EUA e Israel vêm promovendo assassinatos de lideranças iranianas com o objetivo de derrubar o governo do país.

Os autores relatam que os bombardeios teriam matado o Líder Supremo do Irã, autoridades do governo e mais de 140 meninas em uma escola na cidade de Minab. Classificam o episódio como crime de guerra e acusam países como Dinamarca, França, Letônia, Reino Unido e os próprios Estados Unidos de cumplicidade ao não condenarem as ações.

Na avaliação apresentada, a reunião emergencial do Conselho poderá ser lembrada como o dia em que a ONU deixou de funcionar efetivamente a partir de sua sede em território americano. Defendem que, para sobreviver, a organização precisaria operar em múltiplas sedes ao redor do mundo, como Brasil, China, Índia e África do Sul, refletindo a multipolaridade global.

Os autores reiteram que o objetivo dos EUA seria a hegemonia global e o de Israel seria consolidar um “Grande Israel”, destruir o povo palestino e impor hegemonia regional. O texto menciona declaração recente do embaixador dos EUA, Mike Huckabee, sobre a extensão territorial “do Nilo ao Eufrates”.

O artigo afirma ainda que Washington estaria tentando reafirmar influência no Hemisfério Ocidental sob uma releitura da Doutrina Monroe, alegando controle sobre países latino-americanos. Também sustenta que o presidente venezuelano teria sido sequestrado pelos EUA e que Cuba estaria sob ameaça.

A guerra contra o Irã, segundo os autores, integra uma campanha de três décadas para derrubar governos contrários à hegemonia dos EUA e de Israel. Citam conflitos em Gaza, ocupação da Cisjordânia e operações em países como Iraque, Líbia, Síria e Iêmen.

Outra dimensão apontada é o controle das exportações globais de petróleo, com o objetivo de enfraquecer China e Rússia. O texto afirma que a “tomada” da Venezuela garantiria controle sobre seu petróleo, que sanções à Rússia visariam bloquear exportações para Índia e China, e que agora o alvo seria o petróleo iraniano destinado à China.

Os autores evocam a ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial sob liderança de Franklin e Eleanor Roosevelt, baseada no respeito ao direito e não na força. Sustentam que essa estrutura estaria sendo desmantelada pelo próprio país que ajudou a fundar a ONU.

Argumentam ainda que os impactos diretos da guerra não atingirão o chamado Ocidente, mas recairão sobre o povo do Oriente Médio.

No encerramento, afirmam que os Estados Unidos não alcançarão hegemonia global nem destruirão a ONU, embora possam causar grande sofrimento. Também sustentam que Israel não sobreviverá se mantiver, segundo eles, políticas de guerra permanente e ocupação.

O texto conclui defendendo a solução de dois Estados, reiteradamente apoiada pelo Conselho de Segurança, como caminho para a paz. Afirma que a rejeição dessa proposta poderá levar ao fim de Israel em sua forma atual, diante de mudanças na opinião pública americana e do apoio crescente à causa palestina. Segundo os autores, a ONU estaria sendo “assassinada” por Israel e pelos Estados Unidos, e o Conselho de Segurança deveria reafirmar seu compromisso com a manutenção da paz e da segurança internacionais.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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