Érika Hilton me representa
Sou uma mulher cis, com útero, sem filhos, mãe de pets, professora universitária, feminista e reaprendendo a ser negra. Érika Hilton me representa
A tentativa de deslegitimar a Érika de seu lugar como representante das mulheres, ou das múltiplas mulheridades, apoiando-se em argumentos biologistas, reflete um equívoco. Qual? Esquecer que o corpo humano – qualquer corpo - é muito mais do que um equipamento genético, bioquímico e anato-fisiológico. O corpo da mulher é exatamente muito mais por ser tudo isso mesmo. Ele constitui um todo complexo e dinâmico que se transforma ao longo da vida. A chamada vida biológica é inseparável da vida psíquica.
Somos uma composição indissociável entre o que chamamos de corpo e o que nomeamos de mente, consciência ou alma. E estas dimensões não são totalmente convergentes. Elas nem sempre são harmônicas. E isso também faz parte da própria sobrevivência. A harmonia entre corpo e alma não é um dado biológico puro e simples. Ela é uma construção processual, resultado de acasos, descompassos, exigências e tensões entre as múltiplas dimensões de nossa existência. Essa harmonia não está dada. Ela se constrói e se desfaz durante a nossa vida vivida. Não há determinismo nem mecanicismo nisso.
Quem acredita numa harmonia natural do corpo - anatomia de mulher com cabeça de mulher, tende a projetar a mesma ficção sobre a sociedade. Tende a fazer crer em uma ordem homogênea e uniforme que nunca existiu. Busca afirmar uma ordem que pretende se colocar acima das realidades vividas pelas mulheridades e masculinidades concretas. Trata-se, antes de tudo, de um projeto de poder. Serve como caminho e veículo para um modo prescritivo de encerrar o debate. Quem busca no biologismo o fundamento de uma verdade universal única e superior, dogmática desde sua origem, abre a porta para a imposição de um pensamento unitário e intolerante, seja à direita ou à esquerda. Isso é uma escaramuça pseudocientífica que apenas simula credibilidade retórica. Nós não somos um genótipo em guerra com o nosso fenótipo. Reduzir o humano a essa caricatura biológica é mais uma cloroquina argumentativa.
Além do biologismo como argumento de autoridade contra a liderança da deputada Érika Hilton, há um outro equívoco que faz confundir duas coisas distintas: a representação política institucional e a representação coletiva. A representação coletiva é a primeira dimensão sociopolítica de organização de nossas vontades. Ela permite que mulheres se reconheçam como parte de um grupo capaz de produzir ação comum, reivindicações públicas e defesa de direitos. Já a representação política institucional é fruto de acordos entre as representações coletivas de mulheres diversas e divergentes em suas pautas. É fruto de negociação em torno do dissenso entre grupos e dentro dos próprios grupos. A representação política existe justamente para transformar, por meio de pactuações, conflitos de visão, de interesses e de práticas em agenda comum e factível de políticas públicas. E, dessa maneira, produzir decisões e rumos legítimos em sociedades plurais.
Confundir essas dimensões é, ainda que a contragosto, reduzir a representação política à crença de que só quem encarna uma identidade específica pode representar um grupo que é, ele mesmo, diferenciado e conflituoso por dentro. Quando isso acontece, abre-se uma avenida de mão única da autorrepresentação, uma espécie de coletivo de um só. Mas que, no entanto, se situa como superior ao próprio movimento coletivo que diz representar. E que, contraditoriamente, traz distintos matizes identitários que questionam este tipo de monopólio da representação. Isso não forma grupo. Divide, exclui e enfraquece a própria base de apoio. Isso esvazia a própria política e a consolidação de conquistas das mulheres. O que se obtém por essa via são “tiros amigos” que drenam as energias coletivas. Produz um sequestro identitário autocentrado da potência coletiva. Entra em cena um projeto particularista que transforma a política numa soma de identidades autorreferidas. Estas revelam-se marcadas por um individualismo possessivo e de mercadização do que é específico e irredutível do lugar de mulher, e que se beneficia da narrativa neoliberal: cada uma, ser único e avulso, representando apenas a si mesma ou ambicionando hegemonia pela sujeição de outras manifestações do feminino. Isto consiste em uma manobra que não produz enraizamentos e nem mediações coletivas.
Mas política não se faz por espelhos identitários confinados à busca do mesmo que constrange, silencia e apaga o diverso no ser mulher. Política se faz por acordos, negociação de diferenças e construção de coalizões diante das distintas razões de gênero, orientação sexual, raça/etnia, classe, inscrição religiosa ou origem social. Política se faz articulando as mulheridades.
Falar de mulheridades significa reconhecer que existem mulheres com útero e mulheres sem útero. Assim como existem pessoas com útero que não se reconhecem como mulheres. Essa pluralidade não dissolve a categoria política “mulheres”. Ao contrário, revela sua complexidade biológica, social e histórica e justifica o alargamento de sua inclusão, como no caso das mulheres trans, das lésbicas etc.
Quando confundimos essas representações coletivas diversas, e frequentemente conflituosas entre si, com representação política institucional, ocultamos as assimetrias de poder e prestígio que atravessam esses mesmos grupos. Com isso criamos disputas fratricidas que enfraquecem movimentos sociais e suas lutas políticas. Tem-se o risco de transformar os lugares plurais de fala dos coletivos em lugares políticos de falha na luta por direitos diante das frentes opostas e conservadoras.
Há ainda outro equívoco que ajuda a compreender a resistência ao papel de Érika. Refiro-me a tratar identidades sociais como essências fixas e substantivas. Algo como tomar um tipo de mulher como unidade moral de medida desqualificando as demais expressões. Identidades são, por natureza, porosas, móveis e relacionais. Elas se definem por posição, contraste ou em relação. Identidades não existem por si mesmas e sozinhas. Por isso, a autodeclaração, por si só, é insuficiente para produzir identidade e garantir pertencimento e reconhecimento a um grupo. A autorrepresentação pode facilmente se transformar em um individualismo egoísta que nega a própria política e produz isolamento e desmontagem de pautas coletivas, porque movimenta-se pela destituição gradual de sujeitos - as mulheres.
Identidades rígidas e substantivas — por exemplo, nas definições fechadas do feminino ou das mulheridades — produzem o oposto do que pretendem. Geram lógicas intolerantes, discriminatórias e excludentes. E isso inclusive por parte daquelas mulheres que viveram essas mesmas experiências de intolerância, discriminação e exclusão. Isto leva ao autofechamento identitário. Isso corresponde a cercos sobre a diferença, ao insulamento empobrecedor de mulheres reais a uma única condição de gênero. Quando identidades legítimas se submetem às perversões do identitarismo, estas passam a falar uma língua incapaz de tradução política em outras línguas que conformam o mundo do feminino.
Não por acaso, o substancialismo identitário, que sobe muralhas contra o plural do feminino, traz consigo uma lógica muito antiga: a lógica patriarcal heteronormativa. Esta afirma existir uma “natureza feminina” determinada biologicamente. É a mesma lógica simbólica da costela de Adão, que historicamente inspirou legislações sobre as mulheres. No Brasil isso aparece de forma particularmente clara. Reduz-se gênero a mulher e mulher a sexo biológico. Gênero passa a ser tratado como sinônimo de sexo. E sexo, como destino biológico. Essa redução produz efeitos político-normativos. Em parte expressiva das leis protetivas, só há lugar para duas figuras: a mulher potencialmente reprodutora — aquela que pariu ou deve parir — ou a mulher vítima de violência que precisaria ser protegida dos homens e por homens.
Assim reforça-se a expropriação histórica do corpo feminino e a tutela sobre nossas vidas: tutela do Estado, da Igreja e da própria sociedade. Identidades essencialistas tornam impossível aquilo que sustenta a própria política democrática: as identidades de coalizão. Identidades de coalizão não são identidades puristas. Elas se constroem no encontro entre diferenças, quando grupos diversos reconhecem que, apesar de trajetórias distintas, possuem interesses comuns capazes de sustentar a ação coletiva.
É assim que se produzem alianças políticas duráveis. É assim que se constroem agendas públicas. É assim que se formam campos majoritários que seguem distintos internamente e com conflitos a serem confrontados na produção do interesse comum e das necessidades singulares de cada mulheridade que o compõe.
Na vida real, nós nos movemos permanentemente entre múltiplos e transversais endereçamentos sociais. Não se é apenas mulher. Se é mulher cis, trans, branca, indígena, quilombola, negra, periférica e assim por diante. Não se é mulher no genérico e nem se é feminino desterrado. É nessas interseccionalidades que se formam identidades de coalizão, capazes de articular diferenças sem anulá-las.
Quando identidades são tratadas como substâncias fechadas e excludentes, torna-se impossível construir essas coalizões. A política se fragmenta em enclaves identitários internos que disputam legitimidade entre si e implodem por dentro o coletivo e sua política. O resultado costuma ser a debilidade das agendas, a fragmentação das pautas e novas formas de condução autoritária das lutas.
Érika Hilton é deputada federal. Como tal, exerce representação política institucional. Essa representação vem de um processo político legal e legítimo: voto, negociação, acordo e, portanto, legitimidade democrática. Érika pode — e deve — exercer essa representação política dentro de um mundo plural de mulheridades, com ou sem útero, com experiências diversas e trajetórias distintas.
Eu não busco alguém idêntica a mim. Eu busco quem tenha mandato e mostre mérito político para lutar por uma política diversa e inclusiva das mulheres.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
