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Denise Assis

Jornalista e mestra em Comunicação pela UFJF. Trabalhou nos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora da presidência do BNDES, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" , "Imaculada" e "Claudio Guerra: Matar e Queimar".

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Depois de Brizola, Lula. GloboNews desmente PowerPoint

Andréia Sadi, a editora do programa “Estúdio I”, que deveria ser de “informação”, precisou vir a público dizer que emissora desinformou, mentiu, errou

Depois de Brizola, Lula. GloboNews desmente PowerPoint (Foto: andreia-sadi)

Menos de uma década após a redemocratização, no telejornal de maior audiência do país - o Jornal Nacional -, Leonel Brizola, então governador do Rio, teve o direito de desmentir a Globo - em 15 de março de 1994 -, ao passo que dava uma lição de civilidade e moral na emissora. Hoje, 32 anos depois dessa conquista que marcou a história da política e da imprensa nacional, a Globo tem que novamente se curvar e vir à público dizer: “errei, sim”. A contragosto, com o rosto tenso, expressão crispada, Andréia Sadi, a editora do programa “Estúdio I”, que deveria ser de “informação”, precisou vir a público dizer que a emissora desinformou, mentiu, errou.

Naquele 15 de março de 1994, Brizola, então governador do Rio de Janeiro, dirigiu-se ao país com palavras firmes, relembrando a todos que seu espaço na mídia só era garantido por meio da justiça, em um processo que durou dois anos.

O líder trabalhista criticou abertamente a emissora por sua postura tendenciosa e sua longa convivência com regimes autoritários, desafiando assim um dos maiores conglomerados de comunicação do país em nome da verdade e da transparência. Tudo isso na voz de Cid Moreira, âncora do Jornal Nacional, como relembrou na data de 30 anos do feito, a página do seu partido, o PDT.

Não por acaso, nesta segunda-feira (23/03), Andrea que costuma coordenar o programa de vestidos vaporosos, saias ou combinando calça e blusa, hoje envergava um sisudo terno marrom. Com ares de executiva, em tom solene, fixando a câmera (em plano americano), ela interrompeu o programa pelo meio com o seguinte texto: “deixa eu registrar aqui para vocês. Na última sexta a gente exibiu aqui uma arte, com o objetivo de apresentar as conexões do Vorcaro com políticos e acessos relevantes”.

Mesmo em condição desfavorável, pressionados por 84% da população que frequenta as redes sociais e se posicionou contra o que exibiram, Sadi não deu o braço todo a torcer. Chamou de arte o PowerPoint, e de “erro” a mentira que tentaram colar na sociedade. Não fosse a grita geral, e a tal arte estaria hoje sendo repetida à exaustão, com o presidente Lula indelevelmente ligado a Vorcaro, quando o que fez foi não mais que lhe dar um “boa tarde” e encaminhá-lo para “uma análise técnica do seu caso”.

Não foi uma arte, Sadi. Foi um PowerPoint, com ares de trabalho escolar do ensino básico, exibia fotos com cordões em vermelho – a cor do PT -, lingando os personagens – o presidente Lula, inclusive -, a Vorcaro, ao melhor estilo Lava-Jato 0.1. 

Acontece que tudo isso está muito fresco na memória da população. Houve reação. Não só de pessoas ligadas ao partido, como ao governo e do público em geral, e que rapidamente apontaram naquela “arte” resquícios de uma perseguição desenfreada, que culminou com o Lula na cadeia por 580 dias, injustificadamente.

O Brasil mergulhou no retrocesso, graças a “erros” dessa natureza. “O material estava errado e incompleto”, disse ela, ainda em plano americano”. De cá, da poltrona, pensamos: vai citar os nomes dos faltosos: Roberto Campos Neto, Ciro Nogueira, Davi Alcolumbre, governador Claudio Castro, Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro... Qual o quê.

Além de dizer que o material estava “incompleto”, acrescentou: “e também não deixou claro o critério que foi usado para a seleção das informações”. Só esqueceu de acrescentar: propositalmente.

“Esse conteúdo acabou misturando contatos institucionais com nomes que Vorcaro menciona como tendo relação contratual ou pessoal, além de outros nomes sob análise da PF, ou que à luz das informações apuradas até aqui, podem ser classificados como não republicanos”, recitou.

Maldoso esse trecho. Usou o princípio de Chacrinha, que não veio para esclarecer, “eu vim para confundir”, dizia ele, nas tardes de domingo. O conteúdo não tem vida própria. Ele não dá uma mexidinha e se auto mistura. Alguém misturou, Sadi. E se misturou e foi ao ar, a editora aprovou, ou não é esta a sua função?

“Nomes sob análise da PF”? Desde quando o nome do presidente da República está sob investigação da PF? Essa frase, dita assim, no contexto do desmentido, não separa o que precisa ser separado: os investigados, os suspeitos, dos que nada a têm a ver com essa história, a não ser ter mandado investigar de forma técnica o que se passava no interior do Banco Master, e que o Banco Central de Roberto Campos não viu. Ou melhor, viu, mas deixou andar, e ainda se descobriu mais tarde que dois funcionários do BC agiam como empregados de Vorcaro como “consultores” para proteger seus negócios.

Daí por diante foi um tal de usar “políticos” e outras formas anódinas para se referir aos que de fato deveriam constar do que Andrea Sadi chamou de “arte”, mas que nós sabemos bem, tratar-se de um Powerpoint, ao melhor estilo Dallagnol. Daqueles que caem na rede e ficam sendo usados à exaustão, para puxar para dentro do escândalo quem na verdade, está, isto sim, acompanhando com zelo e isenção as investigações, para ver no final os culpados, punidos. O sistema financeiro revigorado.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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