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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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De “Uma escolha muito difícil” ao “Isto é Flávio Bolsonaro”

Oito anos depois de tratar Bolsonaro e Haddad como polos equivalentes, o Estadão publica um editorial que desmonta, sem dizer, a própria ilusão de 2018

Senador Flavio Bolsonaro fala com jornalistas, em Brasília, após reunião com aliados 19 de maio de 2026 REUTERS/Mateus Bonomi (Foto: Mateus Bonomi / Reuters)
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Em 8 de outubro de 2018, um dia depois do primeiro turno da eleição presidencial, O Estado de S. Paulo publicou um editorial que ficaria marcado como uma das expressões mais acabadas da cegueira política de parte da elite brasileira. O título era: “Uma escolha muito difícil”. 

A escolha, dizia o jornal, era entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. De um lado, segundo o próprio editorial, estava “o truculento apologista da ditadura militar”. De outro, “o preposto de um presidiário”, referência a Lula, então preso pela Lava Jato, impedido de disputar uma eleição que provavelmente venceria e, anos depois, reabilitado politicamente pelo STF e eleito presidente da República pela terceira vez. 

A frase envelheceu como documento de época. Mais do que isso: envelheceu como confissão. 

O problema daquele editorial não estava apenas na crítica a Haddad ou no antipetismo histórico do jornal. Estava na equivalência. Estava na tentativa de apresentar como igualmente perturbadoras duas candidaturas de natureza radicalmente distinta. 

Uma candidatura democrática, conduzida por um professor universitário, ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo; e uma candidatura autoritária, conduzida por um deputado que fazia apologia da ditadura, exaltava torturadores, atacava minorias, ameaçava adversários e já anunciava desprezo pelas instituições. 

Oito anos depois, a história devolveu o editorial à mesa do próprio Estadão. 

Nesta quinta-feira, 21 de maio de 2026, em plena pré-campanha presidencial, com Lula podendo ser reeleito e Flávio Bolsonaro tentando herdar o espólio político do pai condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes, o mesmo jornal publica outro editorial. O título agora é seco, direto, quase brutal: “Isto é Flávio Bolsonaro”. 

A linha fina é ainda mais devastadora: 

“Ninguém pode se dizer surpreendido com as mentiras em série do senador, cuja folha corrida inclui rachadinha e ligação com milicianos. O caso Master não torna Flávio pior do que ele já era.” 

A distância entre os dois editoriais é a distância entre a ilusão e o reconhecimento tardio. Em 2018, a escolha era “muito difícil”. Em 2026, o mesmo campo político que nasceu daquela escolha aparece descrito como aquilo que sempre foi: mentira, rachadinha, milícia, escândalo financeiro, desfaçatez pública e tentativa permanente de converter crime em perseguição política. 

O editorial que desmente o editorial 

O Estadão não escreveu uma autocrítica. Não disse: erramos em 2018. Não disse: ajudamos a normalizar o bolsonarismo. Não disse: tratamos como dilema moral aquilo que era, desde o início, uma escolha entre democracia e aventura autoritária. 

Mas o editorial de 2026 faz isso por ele. 

Quando o jornal afirma que ninguém pode se dizer surpreendido com Flávio Bolsonaro, está dizendo, ainda que indiretamente, que os sinais sempre estiveram ali. Não surgiram agora com o caso Master. Não nasceram com as mensagens, as contradições ou as explicações desmontadas pela produtora de Dark Horse. Tudo isso apenas acrescenta novas camadas a uma trajetória já conhecida. 

Flávio Bolsonaro não foi deformado pelo escândalo. Foi revelado por ele. 

Essa é a força política do editorial. E sua ironia histórica. O jornal que em 2018 tratou Bolsonaro e Haddad como extremos equivalentes agora reconhece que o bolsonarismo não era acidente, nem desvio passageiro, nem conservadorismo tradicional. Era método. Era cultura política. Era forma de poder. 

E Flávio é uma de suas expressões mais acabadas. 

A falsa equivalência cobrou seu preço 

A tese da “escolha difícil” foi uma das maiores fraudes retóricas da eleição de 2018. Ela permitiu que setores da elite, da imprensa, do mercado e do chamado centro político lavassem as mãos diante do abismo. Ninguém precisava apoiar Bolsonaro abertamente. Bastava dizer que “os dois lados eram igualmente ruins.” 

Foi assim que a ameaça autoritária ganhou verniz de normalidade. 

O antipetismo serviu como anestesia moral. O ódio a Lula, ao PT e às políticas de inclusão social foi usado para relativizar o que Bolsonaro dizia, fazia e representava. A defesa da ditadura virou “estilo”. A violência verbal virou “autenticidade”. O ataque às instituições virou “reação ao sistema”. A ignorância virou “linguagem popular”. A barbárie foi rebatizada como alternativa. 

O resultado veio rápido. 

O Brasil viveu quatro anos de destruição institucional, obscurantismo, sabotagem ambiental, ataques à ciência, isolamento internacional, militarização do Estado, estímulo à violência política e ameaça permanente ao processo eleitoral. Depois vieram a derrota de 2022, a conspiração golpista, o 8 de janeiro, a responsabilização judicial e a condenação de Jair Bolsonaro. 

Nada disso caiu do céu. 

O bolsonarismo não enganou o Brasil. O bolsonarismo se anunciou. Quem quis não ver foi porque preferiu não ver. 

Flávio não é plano B. É continuidade 

Agora, em 2026, tenta-se vender Flávio Bolsonaro como solução eleitoral possível para a direita. Não seria Jair. Seria o filho. Não seria o capitão. Seria o senador. Não seria o pai condenado. Seria o herdeiro político. 

A operação é frágil porque parte de uma mentira evidente. Flávio não é ruptura com Jair Bolsonaro. Flávio é continuidade biológica, política e moral do bolsonarismo. 

Sua trajetória não começa no caso Master. Passa pela rachadinha, por Fabrício Queiroz, pelas ligações incômodas com personagens associados ao submundo do Rio de Janeiro, pela defesa sistemática do pai, pela agressão permanente ao Supremo Tribunal Federal e pela tentativa de transformar qualquer investigação em perseguição. 

O editorial do Estadão acerta quando afirma que o caso Master não torna Flávio pior do que ele já era. Apenas torna mais difícil fingir que ele poderia ser outra coisa. 

Flávio Bolsonaro não está sendo descoberto. Está sendo reconhecido. 

Oito anos para enxergar o óbvio 

Há algo profundamente simbólico no fato de essa constatação vir do Estadão. 

Não se trata de um jornal de esquerda. Não se trata de um veículo simpático a Lula. Não se trata de uma publicação que possa ser acusada de petismo ou militância progressista. Ao contrário. O Estadão sempre foi uma trincheira do liberalismo conservador brasileiro, uma voz tradicional da elite paulista, frequentemente hostil ao PT e aos governos populares. 

Por isso mesmo, o editorial de 2026 tem peso político. 

Quando até o Estadão escreve “Isto é Flávio Bolsonaro”, a frase deixa de ser apenas uma crítica ao senador. Torna-se um aviso ao campo conservador que ainda procura um candidato para derrotar Lula sem carregar, pelo menos publicamente, o cadáver político do bolsonarismo. 

Mas esse candidato não existe dentro da família Bolsonaro. Não existe no clã. Não existe no sobrenome. Não existe em Flávio. 

O que existe ali é herança. E herança, neste caso, não é patrimônio político. É passivo histórico. 

O problema nunca foi apenas Jair 

A tentativa de substituir Jair por Flávio revela uma incompreensão — ou uma fraude deliberada. O problema do bolsonarismo nunca foi apenas Jair Bolsonaro. O problema foi a rede política, econômica, religiosa, militar, midiática e digital que viu nele uma oportunidade. 

Foi essa rede que naturalizou o absurdo. Aceitou a violência como método. Flertou com o golpe enquanto fingia defender a democracia. E, derrotada em 2022, tentou manter vivo o projeto autoritário por outros meios. 

Flávio Bolsonaro é parte dessa engrenagem. Não está fora dela. Não é moderador. Não é corretivo. Não é herdeiro civilizado de uma experiência traumática. É operador do mesmo campo político. 

Por isso, o editorial do Estadão é importante. Ele retira uma camada da fantasia. Expõe o óbvio. Diz, em linguagem conservadora, aquilo que a democracia brasileira já deveria ter aprendido à força: não há bolsonarismo limpo. 

Há apenas bolsonarismo antes e depois do escândalo. 

O alerta das pesquisas e a ansiedade das elites 

Há ainda um dado novo que ajuda a explicar o tom do editorial do Estadão. As duas primeiras pesquisas nacionais divulgadas depois da gravação que revelou o contato íntimo entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro detido Daniel Vorcaro mostram o mesmo movimento: Lula abriu vantagem, enquanto Flávio sofreu desgaste imediato. 

Na pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, divulgada em 19 de maio, Lula aparece com 48,9%, contra 41,8% de Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno. Na rodada anterior, em abril, Flávio aparecia numericamente à frente, por 47,8% a 47,5%. Depois do escândalo, a disputa mudou de sinal. 

A Vox Brasil reforçou a tendência. Lula aparece com 46,6%, contra 38,1% de Flávio Bolsonaro em cenário de segundo turno. Segundo a divulgação do levantamento, Lula avançou 6,6 pontos, enquanto a candidatura de Flávio passou a registrar queda depois do episódio envolvendo Vorcaro. 

É impossível afirmar, sem uma confissão do próprio jornal, que essas pesquisas foram a causa direta do editorial. Mas é legítimo observar a coincidência política. O texto não surge no vazio. Surge no momento em que Flávio deixa de parecer uma alternativa competitiva da direita e passa a se transformar em risco eleitoral para o campo conservador. 

O Estadão, porta-voz histórico do conservadorismo das elites, parece menos interessado em aderir a Lula do que em se livrar de Flávio. Seu editorial não é conversão progressista. É sinal de alarme. 

O jornal olha para a pré-campanha, vê Lula se fortalecendo, vê Flávio sangrando, vê o bolsonarismo atolado no Banco Master, na mentira e na herança criminal do clã, e parece dizer ao velho campo da direita: com esse candidato, a derrota pode estar contratada. 

Essa é a ansiedade real das elites. Elas não querem Lula. Mas começam a perceber que Flávio Bolsonaro talvez seja o pior instrumento para derrotá-lo. 

O Estadão não parece estar aderindo a Lula. Parece estar tentando salvar a direita de Flávio Bolsonaro. 

A escolha agora não pode ser tratada como difícil 

A eleição de 2026 será dura. A extrema direita continuará agressiva, financiada, internacionalizada e disposta a tudo com Trump ao centro da política mundial e da ultradireita global. Eduardo Bolsonaro continua nos Estados Unidos atuando contra a soberania brasileira. Jair Bolsonaro, mesmo condenado, segue tentando comandar o campo político que criou. E Flávio tenta se apresentar como candidato viável de uma direita que não consegue se libertar do próprio monstro. 

Mas uma coisa mudou desde 2018. 

Ninguém pode dizer que não sabia. 

Ninguém pode dizer que foi surpreendido. 

Ninguém pode fingir que Flávio Bolsonaro apareceu do nada, como novidade eleitoral, nome técnico, opção conservadora normal ou candidato de centro-direita. Não. Ele vem de onde vem. Carrega o que carrega. Representa o que representa. 

Em 2018, o Estadão disse que a escolha era muito difícil. 

Em 2026, o próprio Estadão ajuda a mostrar que não era. 

A escolha difícil era uma construção ideológica. Uma fórmula de autoproteção da elite. Um álibi para não enfrentar a ameaça autoritária quando ela ainda podia ser barrada nas urnas. 

Hoje, diante de Lula e Flávio Bolsonaro, a pergunta não é se a escolha será difícil. 

A pergunta é se o Brasil aprendeu alguma coisa. 

Porque, oito anos depois, o país já conhece o roteiro. Conhece os personagens. Conhece o método. Conhece o preço. Conhece a mentira. Conhece a ameaça. 

E conhece Flávio Bolsonaro. 

Isto é Flávio Bolsonaro. 

E isto, justamente isto, torna a escolha de 2026 muito menos difícil do que alguns ainda tentarão dizer. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.