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Heba Ayyad

Jornalista internacional e escritora palestina-brasileira

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Como os "ataques cirúrgicos" se tornaram um atoleiro para os EUA?

Resiliência inesperada transformou a guerra de uma "operação cirúrgica rápida" em uma guerra de desgaste prolongada

Pessoas em frente a prédios danificados após ataque a delegacia de polícia em Teerã, Irã - 4 de março de 2026 (Foto: Majid Asgaripour/WANA via REUTERS)

O ciclo trumpiano — da escalada militar ao recurso à negociação — não é meramente "a arte da negociação", mas a prova viva de que até mesmo uma superpotência, quando confrontada com resistência imprevista, é forçada a manobrar em busca de uma rota de fuga. O comportamento do presidente dos EUA, Donald Trump, em relação ao Irã destaca-se como um exemplo primordial de seu estilo político ao longo de décadas, que combina frequentes ameaças de escalada militar e expansão da agressão com recuos parciais quando perdas econômicas reais se aproximam, particularmente em relação aos preços do petróleo.

Esse comportamento não pode ser explicado como um transtorno de personalidade ou algum tipo de loucura por parte de Trump, embora não esteja totalmente livre de tais questões psicológicas. Em vez disso, trata-se de uma estratégia derivada de livro “A Arte da Negociação”, acrescida de uma camada adicional de considerações econômicas internas que afetam sua popularidade e o desempenho da economia estadunidense.

Calma e tempestade simultaneamente

Com a escalada do conflito entre os Estados Unidos e Israel, de um lado, e o Irã, de outro, as forças iranianas anunciaram o fechamento parcial do Estreito de Ormuz ou ameaçaram fechá-lo completamente em resposta aos ataques. Isso levou a uma alta nos preços do petróleo Brent, que ultrapassaram os US$ 100 por barril pela primeira vez desde 2022.

Em 6 de março, Trump exigiu a "rendição incondicional" do Irã, aumentando ainda mais as tensões e provocando queda nos índices de ações dos EUA, além de uma elevação significativa nos preços do petróleo. Trump respondeu às críticas com uma publicação na plataforma Truth Social, em 12 de março, afirmando: "Os Estados Unidos são, de longe, o maior produtor de petróleo do mundo, então, quando os preços do petróleo sobem, ganhamos muito dinheiro. Mas o mais importante para mim, como presidente, é impedir que o império maligno do Irã adquira armas nucleares e destrua o Oriente Médio e o mundo."

Essa publicação gerou críticas generalizadas, mas refletiu sua tentativa de retratar o aumento de preços como um "benefício" para o governo dos EUA, embora o país também seja o maior consumidor de petróleo do mundo, e o aumento dos preços da gasolina impacte negativamente os eleitores.

Mais tarde, em uma tentativa de acalmar o pânico econômico, Trump foi forçado a declarar que "a guerra está praticamente terminada e atingiu seus objetivos". No entanto, a realidade no terreno contradizia suas afirmações, especialmente considerando a escalada da resposta iraniana e os contínuos ataques aéreos dos EUA e de Israel em território iraniano. Menos de uma semana depois, foi anunciada a morte do Dr. Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, que passou a integrar a lista de mártires e líderes iranianos.

Em 22 de março, Trump intensificou drasticamente suas ameaças, dando ao Irã um ultimato de 48 horas para reabrir completamente o Estreito de Ormuz sem qualquer ameaça; caso contrário, "os Estados Unidos atacarão e destruirão suas diversas usinas nucleares, começando pela maior!". Ele escreveu em letras maiúsculas: "Se o Irã não ABRIR COMPLETAMENTE... os Estados Unidos da América atacarão e destruirão suas diversas USINAS NUCLEARES, COMEÇANDO PELA MAIOR!".Essa ameaça provocou uma forte resposta iraniana. Teerã anunciou sua prontidão para fechar completamente o Estreito de Ormuz e ameaçou retaliar, atacando usinas de energia na região que abastecem bases estadunidenses e israelenses, aumentando ainda mais as tensões e elevando os preços do petróleo.

No entanto, no dia em que o ataque estava programado — ou pouco antes —, Trump mudou abruptamente de ideia, publicando na plataforma Truth Social: "Tenho o prazer de informar que os Estados Unidos e o Irã tiveram conversas muito boas nos últimos dois dias sobre uma resolução completa e definitiva das hostilidades no Oriente Médio". Consequentemente, ele ordenou ao Departamento de Defesa que adiasse quaisquer ataques militares contra usinas de energia e instalações energéticas iranianas por cinco dias.

Essas declarações tiveram impacto imediato no mercado, com os preços do petróleo despencando (o petróleo Brent caiu de 10% a 13%) e o índice Dow Jones Industrial Average subindo mais de 1.000 pontos.

Por sua vez, o Irã negou qualquer diálogo com Washington, rejeitando as alegações de Trump e considerando-as — como de fato são — uma tentativa de reduzir os preços da energia e ganhar tempo para implementar planos militares. O país enfatizou que não foi quem iniciou a guerra e que qualquer iniciativa de mediação deveria ser direcionada a Washington.

Motivações múltiplas e interligadas

Uma série de motivações e fatores se interligam para explicar o comportamento de Trump, tornando impossível atribuí-lo a uma única causa direta. Em vez disso, decorre de uma combinação de estilo pessoal, considerações econômicas e cálculos políticos internos.

Primeiramente, destaca-se seu estilo pessoal de negociação: Donald Trump se baseia no que pode ser chamado de estratégia de “choque e pressão máxima”. Ele normalmente começa elevando as exigências a níveis extremos — como falar em rendição incondicional ou na destruição completa da infraestrutura — numa tentativa de criar um estado de choque e pressão psicológica no lado oposto. Por meio dessa escalada, aposta que o adversário tentará evitar o pior, oferecendo concessões iniciais. Posteriormente, recua parcialmente dessas posições, apresentando essa retirada como uma “conquista” ou uma “vitória na negociação”. Esse padrão não é novo; ficou claramente evidente em suas negociações com a Coreia do Norte, em 2017, quando proferiu suas infames ameaças de "fogo e fúria", antes de migrar para a diplomacia de cúpula com Kim Jong-un nos dois anos seguintes.

Ele também repetiu a mesma abordagem na guerra comercial com a China e até mesmo em suas negociações com o Talibã, no Afeganistão. Embora essa abordagem tenha se tornado amplamente transparente e sua eficácia tenha diminuído com o tempo, o exibicionismo de Trump o leva a se apegar a ela, chegando até mesmo a tentar empregá-la em novas crises.

Em segundo lugar, destacam-se as preocupações econômicas: apesar das repetidas declarações de Trump minimizando o impacto da alta dos preços do petróleo e, por vezes, retratando-a como um fator positivo para a economia estadunidense, a realidade econômica é mais complexa.

A alta dos preços da energia impacta diretamente os preços dos combustíveis, levando ao aumento das taxas de inflação e pressionando o poder de compra da classe média, que constitui a base social mais importante em qualquer equação eleitoral nos Estados Unidos. Além disso, a continuidade dessa situação pode ameaçar a posição do Partido Republicano nas próximas eleições, especialmente diante de indícios de declínio no entusiasmo entre alguns de seus apoiadores — tendência que se reflete, inclusive, em veículos de comunicação próximos ao partido.

Em terceiro lugar, destacam-se a postura política e a construção de imagem: Trump busca constantemente consolidar sua imagem de presidente forte e decisivo, capaz de gerenciar crises complexas com rapidez e, simultaneamente, "punir" e "conter" adversários. Essa imagem, embora amplamente questionada, permanece um elemento fundamental de sua retórica política direcionada ao público estadunidense.

Nesse contexto, alcançar qualquer forma de "vitória política" torna-se um fim em si mesmo. À medida que o tempo passa sem mudanças tangíveis na prática — como visto nos recentes confrontos com o Irã —, cresce a necessidade de Trump de criar uma saída que possa ser apresentada a seus apoiadores como um sucesso, mesmo que esse sucesso seja simbólico ou baseado mais em uma reformulação dos fatos do que em uma mudança genuína no equilíbrio de poder.

Ambos os lados apostaram no rápido colapso da República Islâmica, em questão de dias ou semanas, confiando em ataques de precisão, assassinatos de alto nível e isolamento internacional. No entanto, o regime resistiu com sucesso à crise e continuou lutando por quase um mês contra a nação mais poderosa do mundo e seu formidável arsenal militar.

Essa resiliência inesperada transformou a guerra de uma "operação cirúrgica rápida" em uma guerra de desgaste prolongada, prejudicando a economia global como um todo, incluindo a estadunidense, e forçando Israel a recuar de seus objetivos estratégicos. Portanto, vemos Trump, hoje, manobrando por todos os meios, em uma tentativa calculada de se livrar de um atoleiro imprevisto e de encontrar alguma fórmula que lhe permita manter as aparências perante a opinião pública estadunidense, antes que a guerra se transforme em um pesadelo econômico e político prolongado.

Nesse sentido, o ciclo trumpiano — da escalada militar ao recurso às negociações — tornou-se não apenas "a arte da negociação", mas a prova viva de que mesmo uma superpotência, quando confrontada com resistência imprevista, é forçada a manobrar em busca de uma rota de fuga.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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