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Marcelo Pires Mendonça

Professor da rede pública de ensino do DF e especialista em Direitos Humanos

30 artigos

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Como o capitalismo produz nosso cansaço

O rompimento com o ciclo da autoexploração é tarefa revolucionária da classe trabalhadora brasileira

Como o capitalismo produz nosso cansaço (Foto: Divulgação)

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han acertou ao diagnosticar que não vivemos mais sob a lógica da disciplina, mas sob o império do desempenho. No livro “A Sociedade do Cansaço” ele afirma: "O sujeito do desempenho se abandona à liberdade obrigada ou à livre obrigação de maximizar o seu desempenho. O excesso de trabalho se aprofunda e se converte em autoexploração. Esta é muito mais eficaz do que a exploração por outros, pois é acompanhada por um sentimento de liberdade". É exatamente essa armadilha que “naturaliza” a escala 6x1 no Brasil: faz o trabalhador acreditar que sua exaustão é escolha, quando na verdade é estratégia de acumulação do capital no neoliberalismo. Um regime que já não opera pela coerção explícita, e sim pela internalização da disciplina, como bem coloca o etnógrafo francês Romain Huêt, "o capitalismo produz nosso cansaço e depois nos vende soluções. É um ciclo bastante vertiginoso". O neoliberalismo sofistica essa engrenagem ao substituir o patrão que ordena pelo empreendedor de si mesmo, aquele que voluntariamente se submete à jornada exaustiva na ilusão de que o excesso de trabalho é mérito pessoal. Trata-se, em termos marxistas, da passagem da extração de mais-valia absoluta (aumento bruto da jornada) para a mais-valia relativa combinada com a subordinação real do trabalho ao capital, uma vez que o trabalhador não vende apenas sua força de trabalho, mas entrega sua subjetividade inteira à lógica produtivista. 

A escala 6x1, nesse contexto, é uma engrenagem perfeitamente ajustada ao neoliberalismo contemporâneo: exige do trabalhador o máximo de desempenho, banaliza o sofrimento como parte do esforço necessário para vencer na vida e, quando o corpo colapsa, oferece como solução o consumo individualizado. O ciclo se fecha: o capital produz a exaustão e, com ela, lucra duas vezes. O cansaço, apontado erroneamente como um sintoma individual, é na verdade uma produção social capitalista, ou seja, nosso cansaço é político! O mercado transforma o cansaço que ele mesmo fabrica em mercadoria e a escala 6x1 é a fábrica mais produtiva desse ciclo, como revela pesquisa da Unicamp que aponta que 76,3% das pessoas ocupadas no Brasil trabalham mais de 40 horas por semana, e cerca de 21 milhões de trabalhadores ultrapassam as já absurdas 44 horas semanais. Mais grave: em 2024, o país registrou meio milhão de afastamentos por doenças psicossociais causadas por condições desfavoráveis no trabalho. 

A II Conferência Nacional do Trabalho, encerrada em 5 de março de 2026, em São Paulo, foi um marco da retomada da participação social e do fortalecimento da democracia, reunindo mais de 3 mil pessoas delegadas de todo o país, com representação paritária entre trabalhadores, empregadores e governo (inspirada no modelo tripartite da OIT), a Conferência aprovou propostas que apontam na direção oposta ao produtivismo desumano. A Declaração Final do evento aponta para a importância de encarar os desafios do presente para preparar a transição direcionada ao desenvolvimento social, ao crescimento econômico e à geração de oportunidades a todos os trabalhadores e trabalhadoras. Transição essa que deve pautar a construção de uma sociedade na qual se trabalhe para viver e não o contrário...

Do ponto de vista do materialismo histórico-dialético, a escala 6x1 é a expressão mais evidente da exploração da força de trabalho em um capitalismo que precisa extrair o máximo de mais-valia possível. E assim impera o que os teóricos que debatem o cansaço nas sociedades contemporâneas classificam como a conversão da vida inteira em desempenho, em performance. Nesse contexto, o trabalhador vira seu próprio carrasco e, como afirma Byung-Chul Han “O cansaço mais tremendo é o de não poder descansar de si mesmo". Essa é a mais sofisticada forma de dominação: a que convence o explorado de que sua exploração é mérito, empreendedorismo ou liberdade. Mas a dialética nos ensina que toda contradição gera seu contrário, assim a mesma exaustão que oprime pode se converter em força política como observamos no movimento pelo fim da escala 6x1, que ganhou as ruas e já tem 73% de apoio popular segundo pesquisa Nexus. O governo Lula já sinalizou que a redução da jornada para 40 horas semanais, com escala máxima 5x2 e sem redução salarial, é prioridade do último ano de mandato. O presidente foi categórico: "Com os avanços tecnológicos que o Brasil teve, acha que é necessário as pessoas trabalharem na mesma jornada que trabalhavam há 40 anos?" A pergunta ecoa o diagnóstico de Byung-Chul Han sobre a passagem da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho, mas com um desfecho que o filósofo sul-coreano talvez não tenha antecipado: se o neoliberalismo nos fez acreditar que éramos protagonistas de nós mesmos enquanto nos autoexplorávamos até o colapso, agora a classe trabalhadora está dizendo que prefere ter autonomia sobre o seu tempo.

A II CNT deixou demarcado que o diálogo tripartite é caminho, mas não pode ser desculpa para paralisia pois o diálogo sem a disputa da correlação de forças não passa de conciliação de classes. A história nos ensina que nenhum direito foi concedido à classe trabalhadora, uma vez que todos os benefícios e avanços foram conquistados com luta. A redução da jornada de 48 para 44 horas na Constituição de 1988 aconteceu em meio à "década perdida", com inflação alta e desemprego e as empresas não quebraram, pelo contrário, a produtividade aumentou. Antes, como agora, o que está em jogo é a disputa política e não a viabilidade econômica da proposta. Concluir este artigo é, antes, convocar: o cansaço que nos foi imposto como destino pode se tornar nossa força. O estudo do Ipea já demonstrou que o impacto econômico do fim da escala 6x1 é inferior a 1% nos custos operacionais da indústria e do comércio. Enquanto isso, o estudo do Cesit/Unicamp aponta potencial de geração de 4,5 milhões de novos empregos e aumento de 4% na produtividade. Como nos lembra o velho dito recuperado por Leonardo Boff: antes dizia-se "metrô, trabalho, cama". Agora, na era do capitalismo do cansaço, "metrô, trabalho, túmulo". É preciso romper com a lógica capitalista que transforma vidas em tempo de máquina para que, enfim, o trabalho sirva à vida e não o contrário.

REFERÊNCIAS:

Barbosa, Alexandre. Fim da escala 6×1 é possível. Disponível em: https://tvtnews.com.br/fim-da-escala-6x1-tire-suas-duvidas/ 

Boff, Leonardo. A sociedade do cansaço e do abatimento social. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/185-noticias-2016/550586-a-sociedade-do-cansaco-e-do-abatimento-social 

Han, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. 2024. Editora Vozes Nobilis.

Han, Byung-Chul. O império do cansaço. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/562612-o-imperio-do-cansaco 

Han, Byung-Chul. O vírus capitalista do cansaço incessante. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/609285-o-virus-capitalista-do-cansaco-incessante 

Huët, Romain. Entrevista : Em uma sociedade capitalista, nosso cansaço é político. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/663492-em-uma-sociedade-capitalista-nosso-cansaco-e-politico-entrevista-com-romain-huet 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.