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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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Clara Angélica e a luz da memória

Sua morte deixa um vazio imenso em Sergipe e entre os inúmeros amigos e amigas. Mas deixa também algo mais raro: a permanência de uma luz

Clara Angélica Porto Caskey (Foto: Arquivo Pessoal)
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A morte de Clara Angélica Porto Caskey, ocorrida domingo, 10 de maio, em Aracaju, encerra uma trajetória singular da vida cultural sergipana. Jornalista, atriz, cantora, cronista, intérprete, pianista, ativista cultural — Clarinha pertenceu a uma geração que ajudou a construir pontes entre arte, comunicação e vida pública num Sergipe ainda marcado pelos limites da província e pelas inquietações de um mundo em transformação.

Mas talvez defini-la apenas por suas atividades seja insuficiente. Há pessoas que deixam currículos. Outras deixam atmosferas. Clara Angélica parecia pertencer a essa segunda categoria rara: a daqueles cuja presença modifica o ambiente ao redor, ilumina conversas, aproxima pessoas e amplia os horizontes culturais de uma cidade.

As homenagens surgidas desde sua partida revelam justamente isso. Em quase todas elas aparece a mesma imagem: luz, alegria, movimento, flores, jardins, música, inteligência e curiosidade diante da vida.

Luiz Eduardo Costa recordou a menina “precoce, curiosa, até abelhuda”, interferindo nas conversas dos adultos e já demonstrando inconformismo diante da “mesmice provinciana” da antiga Aracaju. O pai a repreendia com o cenho fechado, logo desfeito em orgulho silencioso. Havia ali algo que transcendia a irreverência infantil. Era uma inquietação intelectual precoce, uma recusa instintiva aos limites estreitos impostos às mulheres e à própria vida cultural sergipana daquele período.

Muito cedo, Clara Angélica já transitava pelo rádio, pelo teatro e pela música. Cantava, fazia radionovelas na Rádio Cultura, estudava piano e escrevia crônicas. Ainda adolescente, surgia no jornalismo sergipano com um brilho incomum. A professora Jurandyr, sua mãe, levou-a à Escola de Remington para aprender datilografia — habilidade indispensável para o mundo burocrático da época. Mas logo ficou claro que a jovem ultrapassaria rapidamente os limites técnicos das margens e do teclado. O que surgia ali era uma escritora em formação.

Não por acaso, Joel Silveira teria dito mais tarde que Clara Angélica “estava perdendo tempo na pequenez de Sergipe”. A frase talvez revelasse menos desprezo pela província do que a percepção de um espírito naturalmente cosmopolita.

Esse cosmopolitismo se consolidaria quando Clara Angélica se casou com o professor norte-americano Caskey e foi viver em Nova York. Ali mergulhou intensamente no ambiente cultural e político da cidade, convivendo com a efervescência intelectual, os movimentos de contestação e as transformações comportamentais de uma época marcada pela contracultura e pelos debates sobre liberdade, direitos civis e crítica ao poder. Formou-se ali uma consciência crítica, libertária e profundamente humana, ampliada também pelas viagens e pelo contato com diferentes culturas.

Em Nova York nasceram seus filhos, Sasha e Vanessa, que seguiriam caminhos ligados ao conhecimento, à ciência e à compreensão humana — heranças que parecem dialogar naturalmente com a inquietação intelectual e a sensibilidade cultural da mãe.

Mas é significativo que, mesmo depois dessa experiência cosmopolita, Clara Angélica jamais tenha rompido seus vínculos afetivos com Sergipe. Ao contrário. Retornou inúmeras vezes até decidir reenraizar-se novamente em Aracaju.

Talvez porque algumas pessoas carreguem consigo uma relação orgânica com a cidade onde nasceram. Não apenas como pertencimento geográfico, mas como memória afetiva. Clara Angélica parecia ser uma dessas pessoas que atravessam o mundo sem perder a delicadeza das origens.

O depoimento da escritora Tânia Conceição Meneses revela com beleza essa dimensão. Recordando a convivência no Centro Histórico de Aracaju, ela descreve Clara Angélica “como uma manhã de sol, festiva, sorridente, ativa, comunicativa”. Quando foi viver nos Estados Unidos, escreveu Tânia, “a paisagem sergipana perdeu o dourado e a alegria de Clara Angélica”. Décadas depois, quando retornou, “a claridade voltou nas nossas memórias”.

A imagem é poderosa porque expressa algo maior do que a saudade individual. Certas pessoas acabam se confundindo com a própria paisagem emocional de uma cidade.

E talvez a imagem mais bonita de Clara Angélica seja justamente a do jardim descrito por Luiz Eduardo Costa. Depois de atravessar redações, palcos, músicas, viagens e debates culturais, ela desejava revolver a terra, acompanhar sementes, sentir o cheiro do chão e esperar flores. Pediu a um amigo um ipê para plantar diante de casa. Restou sem resposta a pergunta sobre a cor de suas flores.

Mas talvez isso pouco importe agora.

Porque Clara Angélica Porto Caskey parece pertencer justamente àquelas presenças que florescem de muitas formas na memória dos outros. Permanecem nas ruas antigas de Aracaju, nas conversas dos amigos, nas músicas, nos jardins, nas lembranças da juventude e na delicada vida cultural que ajudaram a construir.

Sua morte deixa um vazio imenso em Sergipe e entre os inúmeros amigos e amigas.

Mas deixa também algo mais raro: a permanência de uma luz.


 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.