Bilionários, pobreza e o velho teatro da meritocracia
Luciano Huck expõe contradição ao criticar auxílio enquanto lucra com apostas
Existe algo profundamente cruel quando um apresentador bilionário decide criticar um benefício de sobrevivência voltado à população de baixa renda enquanto lucra justamente em cima da fragilidade financeira do povo.
E é impossível ignorar a contradição!
De um lado, o discurso moralista sobre “acomodação”.
Do outro, a promoção de plataformas de apostas, “bets” e produtos como o “Familhão”, vendidos como esperança rápida para quem já vive sufocado pela desigualdade.
O pobre pode apostar, consumir sonhos e alimentar a engrenagem do entretenimento milionário. Mas não pode receber auxílio sem ser tratado como suspeito de preguiça.
É o velho roteiro da elite brasileira, romantiza a pobreza quando ela dá audiência, mas despreza o pobre quando ele conquista o mínimo para sobreviver.
A fala de Luciano Huck, mesmo depois da tentativa de suavizar o impacto, escancarou um pensamento muito comum entre setores privilegiados, o de que a população de baixa renda precisa ser constantemente testada, julgada e vigiada. Como se a fome fosse escolha. Como se o desemprego fosse comodismo. Como se o sofrimento social fosse fruto apenas da falta de esforço individual.
E não é!!!!
Os dados mostram justamente o contrário, mais de 60% dos beneficiários do Bolsa Família conseguiram deixar o programa ao longo de uma década. Para muita gente, o auxílio não foi acomodação. Foi o ponto de partida. Foi o empurrão necessário para sair do desespero absoluto, porque ninguém sonha em depender de benefício, as pessoas sonham com dignidade.
A pior dor é a fome!!!!
Quem nunca dormiu sem saber se teria comida no dia seguinte dificilmente entende isso.
Também chama atenção o cinismo de parte dessa lógica neoliberal travestida de “bom senso”, critica-se o auxílio que coloca comida na mesa, mas normaliza-se um sistema de apostas que destrói o orçamento de famílias inteiras. O dinheiro do trabalhador vira lucro para empresas, influencers e apresentadores que vendem fantasia enquanto a realidade afunda.
No fim, sobra o velho espetáculo da falsa empatia televisionada, o “cheguei na sua casa para te salvar” funciona bem diante das câmeras. Mas fora delas, muitos deixam escapar o que realmente pensam sobre os pobres.
E talvez seja exatamente isso que tenha causado tanta revolta!!!
Não foi apenas uma fala!!!
Foi a máscara caindo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

