Banco Master e a engrenagem invisível: mídia, Direito e a seletividade do poder
Estamos diante de um escândalo financeiro ou de mais um exemplo de como o sistema escolhe quem será exposto — e quem será protegido?
O escândalo envolvendo o chamado “Banco Master” não é apenas mais um episódio de irregularidade financeira a ser arquivado na memória curta do noticiário nacional. Trata-se, na verdade, de um sintoma eloquente de algo mais profundo: a relação estrutural entre poder econômico, sistema financeiro e a construção seletiva das narrativas públicas — fenômeno que não pode ser compreendido fora da lógica da instrumentalização do discurso jurídico-midiático.
A primeira questão que se impõe é a assimetria no tratamento dos fatos. Quando determinados agentes políticos ou grupos econômicos são alvos (diretos ou indiretos), a cobertura midiática costuma assumir tons de escândalo permanente, com espetacularização, juízos antecipados e um vocabulário cuidadosamente orientado à condenação pública. Entretanto, quando recaem sobre lideranças conservadoras, observa-se um tratamento, no mínimo, comedido — quando não francamente evasivo. Trata-se de uma contenção narrativa que não decorre da ausência de gravidade, mas da seletividade que organiza o sistema de visibilidade.
Jamais podemos esquecer que a estrutura do Lawfare não se limita ao uso estratégico do sistema jurídico contra adversários políticos; ela pressupõe uma engrenagem mais ampla, na qual a mídia atua como vetor de legitimação. Não há Lawfare sem narrativa. E não há narrativa sem escolha: escolha do que mostrar, de como mostrar e, sobretudo, do que silenciar. Nesse sentido, o escândalo do Banco Master revela não apenas possíveis ilícitos financeiros, mas a própria arquitetura de proteção simbólica de que certos atores desfrutam no espaço público.
É preciso reforçar que a mídia, no interior do sistema capitalista, não pode ser compreendida como instância neutra de difusão de informações, mas como parte integrante da superestrutura ideológica que sustenta e reproduz as relações de dominação da base econômica. O Direito, quando capturado por essas dinâmicas, afasta-se de sua função garantidora e passa a operar como ferramenta de poder.
Defendemos, evidentemente, as investigações e o combate à criminalidade; no entanto, não se pode olvidar que o sistema capitalista preserva seus pilares. Por isso, é indispensável o acompanhamento atento e crítico do avanço das investigações e da formação das narrativas.
Com esse olhar criterioso, devem ser analisadas as negociações de colaboração premiada relacionadas ao caso Master. Em que medida elas são tratadas como instrumento legítimo de elucidação dos fatos? E em que medida podem estar sendo utilizadas como peça estratégica dentro de um jogo mais amplo de disputa narrativa?
A colaboração premiada, como se sabe, é um mecanismo jurídico sensível que, quando mal utilizado, pode ser convertido em instrumento de pressão, barganha e até de construção seletiva da verdade — especialmente quando amplificado por uma cobertura midiática que escolhe quais vozes legitimar e quais silenciar.
No caso do Banco Master, observa-se uma curiosa ambiguidade. De um lado, há aparente disposição de setores da mídia em conferir credibilidade à narrativa apresentada pelo líder do esquema (um banqueiro). De outro, há quase ausência de escrutínio crítico sobre as condições dessa colaboração: quais são os termos negociados? Quais interesses estão em jogo? Que garantias existem de que não estamos diante de uma versão construída sob incentivos que distorcem a busca pela verdade?
Também devemos rememorar a Operação Lava Jato, marcada pelas colaborações premiadas e pelo discurso midiático, que teve início a partir de investigações envolvendo um deputado federal de direita e suas relações com um conhecido doleiro, já implicado no escândalo do Banestado. A partir desse ponto, consolidou-se uma narrativa seletiva, na qual as responsabilidades passaram a recair sobre empresas públicas e governos progressistas.
Cabe recordar, ainda, que tanto a mídia quanto o Direito — enquanto expressões da ordem burguesa — integram a superestrutura do capitalismo. Não são neutros, mas instrumentos que refletem e sustentam os interesses da classe dominante. A grande mídia atua na formação da opinião pública, difundindo valores que naturalizam desigualdades; o Direito, por sua vez, opera na esfera normativa, conferindo aparência de legitimidade às relações de exploração. Ambos, em regra, contribuem para a manutenção da hegemonia burguesa.
Portanto, o escândalo do Banco Master não deve ser analisado de modo desatento ou mesmo por um olhar exclusivamente econômico ou jurídico, mas, sim, com uma leitura crítica de como o poder se protege e de como a narrativa pública pode ser moldada para suavizar, distorcer ou ocultar responsabilidades. Ignorar isso é aceitar, passivamente, que a verdade continue sendo um produto seletivo a serviço da manutenção do sistema capitalista. E, onde há seletividade sistemática, não há justiça — há estratégia política para preservação do sistema capitalista.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
