Camilo Irineu Quartarollo avatar

Camilo Irineu Quartarollo

Autor de nove livros, químico, professor de química, com formação parcial em teologia e filosofia.

138 artigos

AI Gemini

Resumo premium do artigo

Exclusivo para assinantes

Síntese jornalística com foco no essencial, em segundos, para leitura rápida e objetiva.

Fazer login
HOME > blog

As tribos perdidas

De tantos lugares acidentados, nenhum pode ser mais inóspito que o coração egoísta

Representação de povos tradicionais de diferentes regiões do mundo (Foto: Gerada por IA/DALL-E)

Atualmente, alguns povos ainda preservam a vivência tribal. Enfrentam, há milênios, desde o frio do Ártico e das florestas úmidas, da aridez das estepes ao calor escaldante do deserto. Subsistem nos iglus quentes, nas ocas das aldeias, na proteção dos quilombos, nos enclaves de cavernas e sobre os tapetes coloridos das tendas, numa vida sustentável de beleza original, numa economia voltada às necessidades e não à acumulação monetária. Suportam as intempéries, ora se integrando a grandes animais domesticados, do boi aos camelos, com a flora do lugar e seus chás, em ambientes quase inóspitos. De tantos lugares acidentados, nenhum pode ser mais inóspito que o coração egoísta.

Nos primórdios do Cristianismo, pelo território de Israel havia essa consciência tribal, na qual o pão partilhado era o ponto de encontro. Em Roma, era o pão e circo de mortes do Coliseu, um negócio para enaltecer o Imperador e suas conquistas – o pão com a ideologia imperialista de recheio.

Das doze tribos originárias de Israel haviam sobrado as de Benjamim e Levi, na junção com a tribo dos judeus. A partir da destruição do templo, nos anos 70 d.C., Roma começou a combater as chamadas guerras judaicas e expulsou os judeus do território, então errantes e sem pátria. No lugar reconhecido como Palestina, povos árabes semitas passaram a viver com estruturas semelhantes às tribais, clãs familiares e grupos de beduínos.

Entretanto, depois de quase dois mil anos, os judeus sionistas retornaram, impondo-se geograficamente como Estado teocrático e belicoso. Embora muitos judeus não aceitem o sionismo, os sionistas requisitam status nacional de toda a Israel bíblica, relegando os palestinos à sub-raça invasora. Com a guerra em Gaza, as atrocidades são muitíssimas e vistas em tempo real. Nem se consegue processar ou indignar-se reflexivamente com o que se instalou contra os palestinos. O ódio não é contra essa etnia vizinha, em particular; o ódio é contra todos os povos e pessoas da Terra que estejam fora do conceito de sociedade padronizada.

As tribos originárias do Brasil, os quilombolas e os agrupamentos rurais sofrem os mesmos ataques que outras das Américas, e, semelhantemente a Gaza, em nome do “progresso” capitalista. Montam-se cidades sem planejamento saudável, em risco de enchentes, com estrangulamento de tubulações e outras ocorrências, como edificações enormes sobre minas d’água, que produzem contaminação de lençóis freáticos, de rios, das florestas e, por consequência, dos oceanos.

Até mesmo as ações humanitárias podem ser punidas. São incriminados os que dão comida na área central de São Paulo, como o pe. Júlio. Ou os caipiras que se cuidem, por distribuírem gratuitamente marmitas em Piracicaba-SP: agora há multa. Ou, ainda, pode-se correr risco de morte em praça pública ao socorrer algum trabalhador ou manifestante alvejado pela polícia violenta do Brasil.

Entretanto, xô, guerra de nervos; ânimo, viva a vida tribal e os antigos espíritos presentes!

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.