Ao se propor a resolver os problemas de Trump, Flávio Bolsonaro obriga todos os brasileiros patriotas a votar em Lula
Nunca foi tão fácil escolher: de um lado os verdadeiros patriotas, que votarão em Lula mais uma vez; de outro, os entreguistas de sempre
A política brasileira vive, neste momento, um daqueles episódios reveladores que ajudam a separar, com clareza absoluta, os campos em disputa. A recente declaração do senador Flávio Bolsonaro, feita durante sua participação no CPAC, fórum de extrema-direita nos Estados Unidos, foi uma das mais explícitas confissões de subserviência já vistas na história política nacional. Ao afirmar que pretende vencer eleições para solucionar problemas estratégicos dos Estados Unidos – como a questão das terras raras e a dependência em relação à China – o chamado “01” da família Bolsonaro deixou cair qualquer máscara.
Não há como dizer que foi um mal-entendido ou que houve erros de interpretação. Trata-se de uma confissão.
Ao colocar como prioridade os desafios geopolíticos de uma potência estrangeira, Flávio Bolsonaro admite, sem rodeios, que seu projeto político não é voltado ao Brasil, mas sim ao atendimento de interesses externos – mais especificamente, aos interesses de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, que é rejeitado por mais de 60% dos estadunidenses. Trata-se de uma inversão completa da lógica democrática e nacional: um candidato brasileiro que pretende governar para resolver problemas de outro país.
Essa declaração desastrosa transforma a eleição de 2026 em uma escolha extraordinariamente simples. De um lado, estarão os verdadeiros patriotas – aqueles que defendem a soberania nacional, o desenvolvimento independente, a valorização dos recursos estratégicos brasileiros e o papel do Brasil em uma ordem multipolar. Nós, os patriotas, votaremos no presidente Lula.
Do outro lado estarão os entreguistas – aqueles que vestem a camisa amarela, mas se ajoelham diante de interesses estrangeiros; que falam em patriotismo enquanto conspiram fora do país; que utilizam símbolos nacionais para mascarar uma agenda de submissão.
As reações foram imediatas e contundentes. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) classificou Flávio Bolsonaro como “traidor da pátria”, denunciando seu papel como “marionete de Trump contra o próprio Brasil”. A ministra Gleisi Hoffmann foi ainda mais direta, ao chamá-lo de “vendilhão da pátria” e denunciar a atuação articulada da família Bolsonaro no exterior em favor de interesses estrangeiros e contra o sistema democrático brasileiro.
Essas críticas não surgem no vazio. Elas dialogam com um histórico recente que o país conhece bem. O período do governo Jair Bolsonaro foi marcado por alinhamento automático aos Estados Unidos e nunca é demais lembrar que o próprio “capitão” prometeu entregar a Amazônia ao então presidente democrata Joe Biden, se tivesse obtido seu apoio nas eleições passadas.
A menção às terras raras é particularmente grave. Trata-se de um dos ativos estratégicos mais importantes do século XXI, essencial para tecnologias avançadas, transição energética e soberania industrial. Ao sugerir que o Brasil deve resolver os problemas dos Estados Unidos nesse tema, Flávio Bolsonaro sinaliza disposição para abrir mão de um dos pilares do futuro nacional. Note-se que ele não propôs uma parceria, ancorada na soberania nacional. Ao contrário, prometeu entregar o Brasil numa bandeja ao tirano dos dias atuais.
Ao mesmo tempo, o contexto internacional torna tudo ainda mais evidente. Milhões de norte-americanos têm ido às ruas em protestos como o movimento “No Kings”, demonstrando que nem mesmo dentro dos Estados Unidos há consenso ou apoio irrestrito ao projeto político de Trump. Ainda assim, setores da extrema-direita brasileira insistem em se alinhar a esse mesmo projeto, ignorando tanto a realidade interna americana quanto os interesses do próprio Brasil.
O resultado é um paradoxo grotesco: políticos brasileiros defendendo, com mais entusiasmo do que muitos estadunidenses, uma agenda estrangeira que sequer é consensual em seu próprio país de origem.
Diante disso, a eleição de 2026 deixa de ser apenas uma disputa eleitoral comum. Ela se torna um plebiscito sobre a própria existência de um projeto nacional. Sobre a escolha entre soberania e submissão. Entre um Brasil que decide seu próprio destino e um Brasil que aceita ser peça subordinada em estratégias geopolíticas alheias.
Flávio Bolsonaro, ao tentar se apresentar como operador dos interesses de Trump, prestou um serviço involuntário ao país: escancarou o verdadeiro conteúdo do bolsonarismo. E, ao fazê-lo, tornou a escolha dos patriotas, sejam eles de esquerda, de centro ou mesmo de direita, muito mais fácil. Basta digitar 13 nas urnas no dia 4 de outubro deste ano.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



