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Fernando Nogueira da Costa

Professor Titular do IE-UNICAMP

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Alavancagem financeira

Uso estratégico da dívida pode impulsionar crescimento ou ampliar fragilidades, conforme o ambiente macroeconômico e a regulação financeira

Moedas de reais - 15/10/2010 (Foto: REUTERS/Bruno Domingos)

A alavancagem financeira do capital próprio de acionistas globais é hoje uma decisão estratégica central nas grandes corporações. Mas seu papel sistêmico é ambivalente, porque pode expandir a capacidade produtiva e integrar cadeias globais ou, sob certas condições, intensificar fragilidades financeiras e deslocar renda para o circuito financeiro.

Eleva a economia de escala, isto é, há uma redução do custo médio por unidade produzida enquanto o volume total de produção aumenta. Ela ocorre porque os custos fixos (como aluguel e maquinário) são diluídos entre um número maior de produtos, aumentando a eficiência operacional e reduzindo os custos médios.

O núcleo da decisão diz respeito ao diferencial entre o retorno operacional e o custo da dívida. A lógica é simples: se a rentabilidade operacional da produção supera o custo médio da dívida (despesas financeiras com empréstimos), então o retorno sobre o patrimônio líquido (o capital próprio investido ou o valor remanescente aos sócios/acionistas após quitar todas as dívidas) cresce com o uso de capital de terceiros.

Esse mecanismo, analisado também por Hyman Minsky, é inerente ao capitalismo moderno: a expansão ocorre via crédito. A empresa escolhe um grau de alavancagem capaz de maximizar o retorno ao acionista, dado o risco percebido.

Portanto, não é uma decisão secundária. É parte da estratégia central de crescimento e de valorização acionária em escala global.

Ela se tornou ainda mais relevante no capitalismo contemporâneo, por causa de três transformações estruturais:

  1. mercados de capitais profundos e globalizados;
  2. investidores institucionais dominantes (fundos de pensão, fundos soberanos, ETFs);
  3. integração entre financiamento bancário e mercado de capitais.

Empresas competem globalmente por capital. O grau de alavancagem é uma sinalização de eficiência financeira ao usar a emissão primária de ações (IPO - Initial Public Offering) ou as ofertas subsequentes (follow-on) para acumular capital próprio e, então, somar capital de terceiros tomado por empréstimos.

É variável explicativa central do sistema econômico-financeiro complexo por três razões. A primeira é a articulação intersetorial. A decisão de alavancar conecta trabalhadores, via investimento gerador de emprego; governo, por meio da expansão da base tributária; bancos, pela elevação da demanda por crédito; e acionistas estrangeiros, pela expectativa de dividendos e valorização das ações.

Ela ativa simultaneamente vários fluxos do sistema SFC (Stock-Flow Consistent) ou Consistência Estoque-Fluxo: formação de capital próprio – crédito bancário – geração de renda – arrecadação fiscal – remessas de lucro ao exterior.

Se bem-sucedida, a alavancagem amplia a produção e, via canal distributivo, eleva a massa salarial, aumenta o lucro antes de juros e gera mais tributos. Mas, se o custo financeiro sobe ou a demanda pelos produtos cai, proporcionalmente mais renda se desloca para credores; posteriormente, o investimento é comprimido e o emprego é reduzido. A mesma variável capaz de impulsionar o crescimento pode, depois, amplificar a instabilidade financeira.

Em conexão com o regime macroeconômico, a viabilidade da alavancagem depende de a taxa de juros estar estruturalmente baixa, de estabilidade cambial, de previsibilidade fiscal e de acesso a financiamento externo mais barato. Em economias com juros estruturalmente elevados, o limiar de rentabilidade exigido torna-se mais alto, restringindo o investimento produtivo, caso não se recorra ao endividamento externo.

A financeirização produtiva acontece quando o crédito financia a ampliação da capacidade produtiva, incorpora tecnologia, integra cadeias globais e aumenta a produtividade. Nesse caso, há sinergia entre capital financeiro e capital produtivo.

A financeirização parasitária ocorre quando o endividamento financia recompra de ações para distribuição concentrada de dividendos e eleva a fragilidade financeira sem ampliar a capacidade produtiva. A diferença não está no uso da dívida em si, mas no destino do capital.

Quanto à relação com a desindustrialização, a alavancagem visa fortalecer empresas industriais competitivas internacionalmente, viabilizar economias de escala e financiar inovação. Mas, sob câmbio apreciado cronicamente ou juros elevados, empresas industriais enfrentam custos financeiros maiores, competição externa desvantajosa e consequente migração de capital para o sistema financeiro.

Portanto, a alavancagem não combate automaticamente a desindustrialização. Ela precisa de um ambiente macroeconômico coerente.

Na alocação global de capital, investidores institucionais globais buscam retorno ajustado ao risco, governança e liquidez. Empresas alavancadas de forma eficiente elevam o retorno sobre o patrimônio, atraem capital estrangeiro e ampliam a integração internacional. Isso intensifica a participação acionária transnacional, a interdependência financeira e a sensibilidade a ciclos globais.

Quanto à implicação sistêmica, a alavancagem é mecanismo de expansão, amplificador de ciclos, ponte entre setores e canal de transmissão internacional. Ela conecta o circuito produtivo ao circuito financeiro.

Quando coordenada com juros moderados, estabilidade cambial e política industrial consistente, sustenta o crescimento no longo prazo. Quando desconectada dessas condições, eleva a fragilidade financeira, concentra renda e amplia a volatilidade.

Em síntese, a alavancagem financeira da rentabilidade do capital próprio com uso de capital de terceiros é, sim, uma variável explicativa central do capitalismo contemporâneo. Mas seu efeito sistêmico depende do regime macroeconômico, da estrutura produtiva, da orientação estratégica das empresas e da regulação financeira. Pode ser motor de expansão produtiva ou vetor de instabilidade.

A questão decisiva não é “usar ou não usar alavancagem”, mas em qual arquitetura macroinstitucional ela opera.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.