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Marcelo Zero

É sociólogo, especialista em Relações Internacionais e assessor da liderança do PT no Senado

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A volta da política de prostíbulo

Marco Rubio, um anticastrista enfermo, prometeu uma “nova” Cuba. Uma Cuba, sem dúvida, dominada por máfias, na qual os “epsteins” encontrem refúgio e negócios

Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio 24/02/2026 REUTERS/Nathan Howard (Foto: REUTERS/Nathan Howard)
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Pouco antes da revolução cubana, Arthur M. Schlesinger Jr., historiador, ganhador do Prêmio Pulitzer, foi encarregado pelo presidente Kennedy de fazer uma análise da situação na ilha de Cuba.

Disse ele sobre Havana: “Me horrorizou a maneira como essa adorável cidade tinha se transformado desgraçadamente em um grande cassino e prostíbulo para os homens de negócios norte-americanos. Meus compatriotas caminhavam pelas ruas, se deitavam com garotas cubanas de 14 anos e jogavam fora moedas só pelo prazer de ver os homens chafurdando na sarjeta para recolhê-las”. 

A conclusão da análise dizia simplesmente o seguinte: “A corrupção do governo, a brutalidade da polícia, a indiferença em relação às demandas da população por educação, saúde, habitação e por justiça social e econômica constituem-se num convite aberto à revolução.”

Obviamente, Schlesinger estava corretíssimo. Totalmente equivocados estavam os que descreviam a Cuba de Batista como um paraíso na Terra, como faz até hoje a propaganda anticastrista, como faz o mentecapto Marco Rubio. 

Schlesinger não estava só. O próprio presidente John F. Kennedy, que foi crítico a Batista em seu final, declarou, em tom de autocrítica, que: “Penso que não existe um país no mundo, incluindo os países sob domínio colonial, onde a colonização econômica, a humilhação e a exploração foram piores do que as que aconteceram em Cuba, devido à política do meu país, durante o regime de Batista.”

No campo político, Fulgencio foi um ditador sanguinário. Quem disse isso não foram os comunistas ou os “bolivarianos”. Foi John F. Kennedy, que afirmou que: “Nosso fracasso mais desastroso foi a decisão de dar status e apoio a uma das mais sangrentas e repressivas ditaduras na longa história da repressão latino-americana. Fulgencio Batista assassinou 20 mil cubanos em 7 anos – uma proporção maior da população cubana do que a proporção de norte-americanos que morreram nas duas guerras mundiais – e transformou Cuba em um Estado policial total.”

Rubio devia ler Kennedy.

Assim, a Revolução Cubana não aconteceu por acaso. Foi reação popular a uma cruel ditadura apoiada pelos EUA, tanto pelo governo quanto por grupos econômicos da máfia norte-americana, que dominavam os cassinos, os hotéis e os prostíbulos cubanos. E promoviam a pedofilia pela ilha. A autocrítica de John Kennedy veio muito tarde.

A autocrítica também falta agora à administração Trump, que resolveu apertar sobremaneira o bloqueio de mais de seis décadas, com a esperança de mudar, pela violência econômica e, talvez, militar, o governo cubano. 

Trata-se, evidentemente, de política contraproducente, ilegal e cruel, que tem impacto negativo direto na alimentação, na educação, na saúde e no bem-estar do povo cubano, uma vez que impede ou dificulta a chegada de alimentos, energia, equipamentos escolares, medicamentos, entre outros itens essenciais, à Cuba.

Conforme a Cepal, o vergonhoso embargo imposto unilateralmente pelos EUA a Cuba já tinha causado, até 2022, um prejuízo financeiro de ao menos US$ 130 bilhões, em suas pouco mais de seis décadas de existência. Para uma economia pequena como a de Cuba, é um prejuízo gigantesco, que impede o desenvolvimento e a diversificação produtiva da ilha caribenha. 

Ademais, esse bloqueio anacrônico, concebido no auge da Guerra Fria, contraria frontalmente a Carta das Nações Unidas e as regras do direito internacional público, pois impõe sanções extraterritoriais a empresas e países que desejem comerciar ou investir livremente em Cuba. 

O bloqueio não é apenas contra Cuba; é também contra a comunidade internacional. Por isso, desde 1992, a Assembleia-Geral das Nações Unidas aprovou, por imensa maioria, 33 Resoluções que condenam, de forma clara e veemente, o embargo ilegal e cruel imposto a Cuba e ao mundo pelos EUA. 

Normalmente, apenas votam contra tais Resoluções os EUA, Israel e alguns poucos países geopoliticamente satélites. 

Em 2019, para nossa eterna vergonha histórica, o Brasil, sob a batuta olavista de Ernesto Araújo, alinhou-se diretamente à política externa dos Estados Unidos e votou contra a Resolução de condenação. O placar geral foi de 187 votos a favor da condenação do embargo e de apenas 3 votos em contrário (Estados Unidos, Israel e Brasil). Nos anos seguintes, o governo Bolsonaro se absteve.

A flagrante ilegalidade do bloqueio tornou-se criminosa com as 243 regras comerciais restritivas e draconianas adicionais impostas pelo primeiro governo Trump a Cuba em plena pandemia, as quais impediram esse país de receber imprescindíveis equipamentos de saúde, como respiradores, vacinas e outros insumos, vitais para salvar vidas de cidadãos cubanos. 

Mais recentemente, em janeiro de 2026, o Trump emitiu uma Ordem Executiva declarando que Cuba representa uma ameaça à segurança nacional dos EUA e à sua política externa, proclamando, por consequência, estado de emergência nacional. 

Isso representa uma perigosa escalada do bloqueio, com sérias implicações para a segurança nacional de Cuba, para a região da América Latina e do Caribe, bem como para toda a comunidade internacional, uma vez que mina ainda mais a legitimidade e a credibilidade de uma ordem internacional baseada em regras, ancorada na Carta da ONU e na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

É inadmissível e incompreensível que, já em meados da terceira década do século XXI, os EUA continuem a reger sua política externa em relação a Cuba e à América Latina com base em diretrizes anacrônicas herdadas da Guerra Fria, agora renovadas pelo Corolário Trump da Doutrina Monroe, que reafirma a visão de que a América Latina e o Caribe são uma espécie de quintal geopolítico dos EUA, no qual não se admitam outras influências. 

É vergonhoso que essa vertente da política externa dos EUA continue a refletir os interesses minoritários e reacionários da comunidade anticastrista da Flórida, e não os autênticos anseios dos povos latino-americanos.

O pior é que esse agravamento do bloqueio foi acompanhado de acusações “canalhas” (assim definidas pelo governo cubano) contra Raúl Castro, pela derrubada de dois aviões do grupo terrorista anticastrista “Hermanos al Rescate”, que tinham invadido o espaço aéreo de Cuba. 

O caso foi muito bem analisado pelo escritor Fernando de Morais, em seu livro “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, o qual conta a incrível história de agentes cubanos que foram enviados a Miami justamente para evitar atos de terrorismo contra Cuba. 

Em sentido contrário ao que se alega, a ameaça vem do outro lado. Os atos terroristas cometidos pelo governo dos EUA contra Cuba causaram 3.478 mortes e deixaram 2.099 pessoas com deficiência na ilha.

A sabotagem contra o avião da Cubana de Aviación em Barbados em 6 de outubro de 1976, a introdução da epidemia de dengue que matou 101 crianças em 1981 e as bombas colocadas em hotéis na década de 1990 foram todos atos feitos por terroristas anticastristas, com o apoio decidido dos governos dos EUA.

Há uma total inversão da verdade histórica. 

Os óbvios problemas econômicos e políticos de Cuba não serão resolvidos com mais embargo e intervenções típicas da “guerra híbrida”.  O bloqueio e as sanções, que não funcionaram para os objetivos pretendidos durante mais de seis décadas, continuarão a ter efeito contraproducente. 

Já uma eventual intervenção militar em Cuba, procurando emular o acontecido na Venezuela e reduzir o impacto negativo do imenso fracasso no Irã, será, provavelmente, um desastre. Cuba, apesar de muito fragilizada, tem tradição de resistência. 

O cinismo do Império é, neste caso, evidente. Os EUA não estão preocupados com democracia e direitos humanos. Preocupam-se apenas em assegurar que seu “quintal” esteja geoestratégicamente alinhado aos seus interesses. 

No altar desses interesses, foram historicamente sacrificados direitos humanos, democracias, desenvolvimento, sonhos, esperanças. Nas veias abertas da América Latina, circularam impunemente ditadores e torturadores impostos pelos EUA, como Fulgencio Batista. 

Desde que os interesses de Washington estejam assegurados, na sua luta geopolítica contra a China e a Rússia, vale tudo.

Vale até transformar um país inteiro em cassino e prostíbulo. Em “puteiro”, como diria Cazuza.

Marco Rubio, um anticastrista enfermo, prometeu uma “nova” Cuba. Uma Cuba, sem dúvida, dominada por máfias, na qual os “epsteins” encontrem refúgio e bons negócios, como ocorria na época de Batista.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.