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Ronaldo Lima Lins

Escritor e professor emérito da Faculdade de Letras da UFRJ

296 artigos

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A resistência cubana e a simpatia do mundo

Isolamento de Washington na ONU expõe desgaste da política de sanções e reforça a solidariedade internacional à resistência de Cuba

Bandeira de Cuba (Foto: Reuters/Gary Cameron)

Mais de 180 nações na ONU (precisamente, 187) se posicionaram em solidariedade a Cuba. Poucos eram os que suportavam as novas formas de esmagamento de sua população, decretadas por Washington. Trata-se talvez da mais longa história de opressão internacional desencadeada contra um regime, com consequências desastrosas para a economia local. E, no entanto, a ilha resiste. Como um psicopata que se esforça em esmagar sua vítima, a Casa Branca reinventa medidas punitivas como se brandisse um chicote contra um cavalo cansado. Por consequência, a comunidade internacional reage, desta vez não para obedecer, mas para contestar e fazer contrabalançar, através de redes de solidariedade, o que a tenacidade cubana afirma ser impossível de aguentar. Sem comida e sem petróleo, anuncia-se uma paralisia total.

O sadismo já desencadeado contra outras nações, entre as quais Rússia, Irã e Venezuela, enquanto plano bem-sucedido, por sorte, apresenta sinais de esgotamento. Um império, por mais forte que seja, necessita da aquiescência dos outros para despertar respeitabilidade. Desta feita, é como se a opinião mundial se declarasse fatigada de se manter de braços cruzados contra a injustiça e despertasse da letargia, pronta para reagir. Os 187 países da ONU, com seu “basta!”, se manifestam dispostos a socorrer as autoridades de Havana com ajuda humanitária, sem esquecer, é claro, da exportação de energia para mover dispositivos econômicos e sociais. Cada vez mais, os Estados Unidos se veem sozinhos, como monarcas de si mesmos, sentindo que a coroa enferruja. Aliás, é preciso dizer que, numa comparação, apesar da crise, cubanos se colocam melhor do que norte-americanos, estes povoando bairros e cidades com desabrigados e moradores de rua, desprovidos de socorro. Na ilha, há muito a miséria já não mostra a cara. Pobreza, sim. Miséria, não.

Os milionários que, em nome dos republicanos, com Marco Rubio e Donald Trump à frente, devem se espantar por ver que, por uma vez, dignidade não se vende. Outrora havia o carisma de Fidel Castro mostrando como agir para defender as conquistas da Revolução, na época do Batista, quando se deixou para trás a fase da prostituição e dos cassinos. Mas as lições se infiltraram no comportamento do povo e agora, nem acenando com o golpe baixo das riquezas subalternas, como se dinheiro caísse do céu, sem concessões, alteram-se as disposições da maioria.

Cabe lembrar que força militar constitui, naturalmente, uma vantagem. Mas não é tudo. Países às vezes se mostram como indivíduos. A partir de um limite, nada os dobra. A farsa da “invasão” da Venezuela (e o sequestro do casal Maduro), sem os desdobramentos necessários de dominação da estrutura interna, porque faltou coragem, soa como intimidação pela metade. O chavismo persiste. E negociações se revelam imprescindíveis a cada passo... A humanidade sabe se comportar quando sente que chegou ao limite. Grandes impérios caíram assim. Quem sabe estamos diante de mais um.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.