A preparação para um conflito mundial de grande envergadura
Escalada militar e crise econômica aprofundam tensões e aproximam o mundo de um confronto de proporções inéditas
Os sinais de que o imperialismo resolveu dobrar a aposta na guerra são vários e aparecem em todas as regiões. Na América Latina, intensificaram a política de golpes de Estado. Quando os golpes não dão certo, enviam diretamente seus porta-aviões para as proximidades do país rebelde, como estamos assistindo na agressão à Venezuela, incluindo o sequestro do presidente eleito. Ação que, de resto, significa uma agressão a toda a América do Sul, além de colocar a região em grave risco. A posição do Brasil, aliás, em relação ao sequestro do presidente do país vizinho mostra como, em política internacional, o governo perdeu totalmente o rumo.
Nesse momento, o que o imperialismo pretende, no terreno internacional, é construir as condições para um confronto de grandes proporções. Os EUA poderiam fazer um acordo, por exemplo, com Rússia e China, de cooperação internacional, nas várias áreas. Ambos os países desejariam muito isso, desde que em condições soberanas, pois não querem a guerra. Mas os EUA não querem fazer qualquer tipo de concessão, porque isso iria fortalecer seus inimigos e, dada a gravidade da crise econômica, seria um perigo mortal para a própria existência do imperialismo.
Na Europa, o grupo de fanáticos que clama dia e noite por uma guerra — sem dispor de condições para travá-la — vem alertando que os russos, após vencerem a Ucrânia, irão atacar todos os países do continente. Comentaristas de TV, grandes jornais, generais que nunca entraram em combate ficam repetindo o tempo todo que é uma questão de tempo para os russos invadirem os principais países da Europa. Curiosamente, não há nenhuma movimentação da Rússia nesse sentido, e as autoridades do país nunca falaram qualquer coisa relacionada ao assunto; muito pelo contrário. O problema é que há censura em relação ao tema, ou seja, as vozes que falam a verdade foram “canceladas” dos grandes meios de comunicação. A censura às vozes dissonantes faz parte do processo de preparação para um confronto maior.
É notável que são as “democracias” que estão à frente da política de preparação para a guerra: EUA e Europa Ocidental. A crescente agressividade militar dos principais países imperialistas no mundo não tem nada a ver com uma suposta “defesa da democracia”. A base concreta dessa postura é a grave crise econômica capitalista. A erosão econômica levou a uma crise política e social no mundo capitalista, que é praticamente uma situação sem saída. A guerra e o aumento da repressão, em todos os países “democráticos”, acabam sendo a saída para o problema.
É um momento bastante singular da história. O imperialismo moderno que está em crise é o maior poder já existente. Não houve, na história do mundo, outro poderio dessa magnitude. O imperialismo, como se sabe, é um consórcio mundial, encabeçado pelos EUA, mas formado por Inglaterra, França, Japão, Alemanha etc., além de um imperialismo de segunda linha formado por países que têm economias menos destacadas. Os impérios anteriores não tiveram o nível de domínio e hegemonia que tem o atual, muito menos os impérios mais antigos, como o Romano ou o Otomano, na medida em que não dispunham dos recursos sofisticados que tem o imperialismo moderno. Todos os impérios fracassaram porque, em algum momento, caíram em um parasitismo econômico muito grande. Vivemos hoje, inclusive, como se sabe, uma etapa de financeirização da economia mundial, que é um parasitismo típico.
Atualmente, a dívida bruta total dos Estados Unidos ultrapassou a marca de US$ 38,4 trilhões. Para se ter uma ideia da velocidade de crescimento, o país atingiu a marca de US$ 38 trilhões em outubro de 2025, o que representa um dos aumentos mais rápidos fora de períodos de pandemia. No terceiro trimestre de 2025, a dívida pública total representava aproximadamente 121% do Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano. Isso significa que a dívida do país é significativamente maior do que tudo o que ele produz em um ano.
Ao mesmo tempo, seu principal concorrente econômico, a China, lidera há algumas décadas o crescimento da economia mundial e se tornou, em boa medida, a “fábrica do mundo”. A China, como se sabe, há décadas tem um ritmo de crescimento bastante superior ao dos EUA, e o valor de seu PIB tende a superar o norte-americano em alguns anos. Em Paridade de Poder de Compra, inclusive, já superou. A China está muito longe, ainda, de ter o PIB per capita dos EUA, porque abriga uma população de mais de 1,4 bilhão de pessoas, contra 333 milhões nos EUA. Como o PIB per capita é uma divisão do PIB total pela população, no caso da China o produto tem que ser dividido por um número muito maior de pessoas.
Os EUA, que são uma verdadeira máquina de guerra, aumentam sua agressividade a cada novo fracasso, o que desmonta a ilusão de alguns de que esse país aceitaria a perda da hegemonia sem brigar. Para assegurar seu domínio sobre o planeta, o país mantém, segundo o Pentágono, 865 bases militares em cerca de 130 países — o que representa 95% de todas as bases militares no exterior. Manter o poder custa muito dinheiro, daí também a dívida colossal dos EUA. Por isso, o país mantém uma política parasitária sobre os países subdesenvolvidos. É preciso gerar muitos recursos para sustentar a máquina de dominação, incluindo a máquina de guerra.
Enquanto os EUA, sob o pretexto do “combate ao terrorismo e às drogas”, mantêm 95% das bases militares em todo o planeta, o conjunto das demais potências militares fica com o restante. Esse é um indicador que fala por si. Claro que o conceito moderno de imperialismo está relacionado à esfera econômica, mas os gastos com defesa (no caso dos EUA, gastos com ataques) também são um indicador dessa condição, incluindo as despesas com bases militares em todo o mundo. Os verdadeiros objetivos dos EUA com as bases militares são o domínio mundial das fontes de energia fóssil e outros recursos estratégicos, o controle das rotas marítimas e terrestres e a ampliação de suas áreas de controle ou influência geopolítica.
Apesar de todo esse poderio militar, que custa caríssimo, já há algumas décadas os EUA têm conhecido derrotas. Se pegarmos um episódio recente, está muito viva na memória a retirada vergonhosa dos norte-americanos do Afeganistão. Foram derrotados por um grupo muito mal armado, o Talibã, sem dinheiro, mas firmemente decidido a derrotar os norte-americanos, que ficaram 20 anos no país e não fizeram nada de bom para sua população. A partir do acontecimento no Afeganistão, principalmente, o imperialismo entrou em uma espécie de rota de crises políticas.
Neste momento, estamos assistindo também à operação militar russa na Ucrânia, que levou o império a uma encalacrada, porque a derrota é uma questão de tempo. Essa investida significou um tiro pela culatra, pois, ao final da guerra, não só a economia russa não foi destruída como terá sido ampliado o poder geopolítico desse país. Aliás, com todo o bloqueio econômico que impuseram à Rússia, sua economia cresceu 3,6% em 2024, contra 2,5% dos EUA. Não há ainda números definitivos, mas, no ano passado, novamente a economia russa cresceu acima da norte-americana. Ou seja, apesar da dureza do bloqueio, que visava desorganizar a economia russa, ocorreu o contrário. A Rússia redirecionou sua produção de petróleo e gás para a China e outros países e vem conseguindo crescer acima da média mundial.
São grandes as possibilidades de que o mundo ingresse em uma etapa mais profunda desse processo de crise do imperialismo como um todo, não só nos EUA, que são a cabeça do império, mas também na Europa e no Japão. Por exemplo, há neste momento um debate sobre a desindustrialização da economia europeia, com maior força, inclusive, na Alemanha, que é a principal economia do continente. Esse debate foi intensificado a partir do problema energético trazido pela guerra na Ucrânia. Historicamente, a industrialização alemã e a de outros países da Europa se basearam muito na oferta de energia barata vinda da Rússia. Com a guerra e o boicote econômico à Rússia, a contrapartida foi a perda dessa fonte barata de petróleo e gás. Há empresas fechando na Alemanha em função do alto custo da energia, que é 2,7 vezes mais caro que a média internacional. Ademais, a Alemanha tem custos de produção, além do de energia, acima dos de países concorrentes. Se a economia mais eficiente e o país mais industrializado da Europa atravessam essa crise, nos demais países do continente a situação é ainda mais grave.
A gravidade da crise do imperialismo traz o risco nada desprezível, conforme mencionado, de os conflitos escalarem, conduzindo a uma conflagração de nível mundial. Os EUA aumentam sua agressividade a cada novo insucesso. O orçamento militar do país para este ano é de US$ 901 bilhões, o maior da história. A Rússia, que está impondo uma inevitável derrota aos EUA na Ucrânia, tem um orçamento de defesa de US$ 160 bilhões, 17,76% do orçamento do primeiro. O orçamento de guerra dos EUA é maior do que o acumulado dos dez orçamentos seguintes no ranking.
A saída que a burguesia está preparando para o Brasil é muito parecida com a que tem sido encaminhada nos países imperialistas. O golpe de Estado de 2016 e os governos de direita que o sucederam, Temer e Bolsonaro, não resolveram os problemas do Brasil. Pelo contrário, colocaram-nos em estágio muito mais grave. O problema de fundo é a crise econômica, que atinge o Brasil ainda mais fortemente do que os países ricos, por ser um país atrasado. Na realidade, a burguesia brasileira quer um desfecho econômico para o Brasil parecido com o que está ocorrendo na Argentina, cujo governo luta decididamente para colocar a nação de volta ao século XIX.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
