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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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A nova geopolítica da energia: petróleo, transição e poder no século XXI

Petróleo, transição energética e disputas de poder redefinem a geopolítica global e colocam o Brasil diante de escolhas estratégicas no século XXI

Petroleiro no Lago Maracaibo, na Venezuela - 14/10/2022 (Foto: REUTERS/Issac Urrutia)
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Durante algum tempo consolidou-se, sobretudo no debate ocidental, a ideia de que a expansão das energias renováveis conduziria progressivamente ao declínio da centralidade geopolítica do petróleo. A transição energética aparecia, muitas vezes, como um processo quase linear: o avanço tecnológico reduziria a dependência dos combustíveis fósseis e abriria caminho para uma economia mundial menos vulnerável às disputas por energia, às guerras no Oriente Médio e às oscilações dos mercados petrolíferos.

Mas o que ocorreu foi precisamente o contrário.

A última década revelou que a transição energética não eliminou a geopolítica do petróleo. Ela passou a coexistir com ela. Em vez de substituir rapidamente a lógica fóssil, o mundo ingressou numa etapa mais complexa, marcada pela sobreposição entre velhas e novas disputas energéticas. O petróleo continua estruturando cadeias industriais, sistemas logísticos, produção de fertilizantes, transporte marítimo, aviação, petroquímica e poder militar. Ao mesmo tempo, a corrida tecnológica em torno de baterias, minerais críticos, veículos elétricos e infraestrutura verde cria novas formas de competição internacional.

A energia voltou ao centro da estratégia global.

Essa transformação aparece de maneira particularmente clara nos conflitos envolvendo Rússia, Irã e Oriente Médio. A guerra na Ucrânia expôs a fragilidade energética europeia de forma contundente. Durante décadas, a União Europeia construiu parte importante de sua competitividade industrial apoiada no acesso relativamente barato ao gás russo. O conflito revelou os limites dessa arquitetura. A substituição acelerada de fornecedores elevou custos, pressionou a indústria europeia e recolocou a segurança energética no centro das decisões estratégicas do continente.

Mais do que uma crise conjuntural, trata-se da erosão de um modelo de globalização que pressupunha energia abundante, barata e politicamente estável. O mundo construído após os anos 1990 baseava-se na hipótese de que mercados integrados seriam capazes de garantir fluxos permanentes de energia independentemente de rivalidades geopolíticas mais profundas. Essa hipótese perdeu consistência.

O caso do Irã também ilustra a persistência da centralidade estratégica do petróleo. O país ocupa posição decisiva numa das regiões mais sensíveis do sistema energético internacional. O Estreito de Ormuz permanece como um dos principais corredores marítimos para o fluxo global de petróleo. Qualquer instabilidade prolongada na região produz impactos muito além do Oriente Médio, afetando cadeias produtivas, inflação, custos de transporte, fertilizantes e segurança alimentar em diferentes partes do mundo.

Os Estados Unidos ocupam posição peculiar nesse novo cenário. A expansão do shale oil transformou o país em grande produtor de petróleo e gás, reduzindo significativamente sua dependência externa direta. Ainda assim, seria um erro imaginar que Washington deixou de depender da estabilidade do sistema petrolífero internacional. A economia norte-americana continua profundamente vinculada à dinâmica global da energia, não apenas pelo peso de suas empresas e instituições financeiras, mas porque a própria estrutura de poder construída pelos Estados Unidos desde o pós-guerra esteve historicamente associada ao controle das grandes rotas energéticas e da arquitetura internacional do petróleo.

Ao mesmo tempo, a ascensão chinesa introduz um elemento novo e particularmente importante nessa reorganização global. A China lidera hoje setores decisivos da transição energética: energia solar, baterias, veículos elétricos e infraestrutura industrial ligada às novas tecnologias verdes. Mas essa liderança não significou abandono da segurança fóssil. Pelo contrário. Pequim ampliou sua presença econômica e diplomática no Oriente Médio, diversificou fornecedores de petróleo, fortaleceu reservas estratégicas e aprofundou relações energéticas com Rússia, África e América Latina.

Esse movimento revela uma diferença importante entre a abordagem chinesa e parte do discurso ocidental sobre transição energética. Na experiência chinesa, a transição não aparece como ruptura imediata com os combustíveis fósseis, mas como um processo administrado pelo Estado, articulando segurança energética, política industrial e capacidade tecnológica. Em outras palavras, a China compreende que transição energética também é disputa de poder.

Essa percepção ajuda a explicar por que o século XXI não está testemunhando o desaparecimento da geopolítica da energia, mas sua transformação. O petróleo permanece central, enquanto novas disputas surgem em torno de minerais estratégicos, semicondutores, baterias, redes elétricas e capacidade industrial verde. A transição energética, longe de eliminar rivalidades internacionais, tornou-se parte delas.

Nesse contexto, o Brasil ocupa posição potencialmente privilegiada, embora ainda marcada por contradições importantes. O país possui grandes reservas de petróleo, matriz elétrica relativamente limpa, experiência em biocombustíveis e enorme potencial em energias renováveis. Poucos países combinam simultaneamente capacidade petrolífera, recursos minerais estratégicos e potencial de liderança na transição energética.

Mas o Brasil ainda opera sem uma estratégia plenamente integrada de soberania energética e industrial.

A condição de exportador de petróleo cru convive com a dependência de derivados importados. A fragilização da engenharia nacional e a paralisação de projetos de refino após a Operação Lava Jato produziram efeitos estruturais importantes sobre a capacidade de planejamento do setor energético brasileiro. O problema não foi o combate à corrupção em si, evidentemente necessário em qualquer democracia, mas a ausência de uma política capaz de preservar simultaneamente capacidade produtiva, engenharia nacional e coordenação estratégica de longo prazo.

A discussão em torno da Margem Equatorial também revela a complexidade do novo cenário energético global. O debate não pode ser reduzido a uma oposição simplista entre desenvolvimento e preservação ambiental. Trata-se de discutir qual posição o Brasil pretende ocupar na reorganização energética internacional em curso. Ignorar os desafios ambientais seria irresponsável. Mas abdicar antecipadamente de instrumentos estratégicos de soberania energética também pode significar perda de capacidade de inserção internacional num mundo cada vez mais marcado por disputas por recursos, tecnologia e autonomia produtiva.

A transição energética será longa, desigual e geopoliticamente tensa. Petróleo, gás, energias renováveis e minerais críticos coexistirão durante décadas dentro de uma economia mundial em transformação. A grande questão do século XXI talvez não seja exatamente o fim da Era do Petróleo, mas a forma como petróleo, tecnologia, indústria e poder passarão a se reorganizar dentro de uma nova ordem internacional ainda em construção.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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