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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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A maré à direita e os desafios da esquerda na América do Sul

O mapa político sul-americano parece cada vez mais desfavorável às forças de esquerda

Abelardo De La Espriella (Foto: REUTERS/Jair Coll)
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A eleição presidencial colombiana de 2026 produziu um resultado que poucos anos atrás pareceria improvável. Depois de eleger, pela primeira vez em sua história, um presidente de esquerda, a Colômbia decidiu entregar o comando do país a um candidato identificado com a direita radical. A vitória apertada de Abelardo de la Espriella sobre Iván Cepeda encerra um ciclo político e amplia uma tendência que vem se desenhando em diferentes partes da América do Sul.

Para quem observa a região a partir de uma perspectiva progressista, a notícia não pode deixar de provocar preocupação. Argentina sob Javier Milei, Equador sob Daniel Noboa, Chile caminhando para uma inflexão conservadora, Peru novamente sob influência da direita e agora a Colômbia. O mapa político sul-americano parece cada vez mais desfavorável às forças de esquerda.

Mas a pior reação possível seria atribuir esse avanço apenas à manipulação da opinião pública, às fake news ou à suposta irracionalidade dos eleitores. Embora esses elementos existam, eles não explicam tudo. A esquerda precisa compreender por que parcelas significativas da população passaram a enxergar seus adversários como portadores de respostas mais convincentes para problemas concretos.

A política do medo e da insegurança

A principal bandeira da nova direita latino-americana não é a economia. É a segurança.

A América Latina continua sendo uma das regiões mais violentas do planeta. Em diversos países, o crime organizado ampliou sua influência territorial, econômica e política. Extorsões, narcotráfico, milícias, sequestros e assassinatos tornaram-se parte da vida cotidiana de milhões de pessoas.

Quando o medo se instala, discursos de força tendem a ganhar espaço. Foi assim em El Salvador com Bukele. Foi assim no Equador. Foi assim no Brasil com Bolsonaro. E foi exatamente esse sentimento que impulsionou a campanha vitoriosa na Colômbia.

A esquerda frequentemente responde enfatizando direitos humanos, inclusão social e combate às causas estruturais da violência. Tudo isso é correto. O problema surge quando a população conclui que essas respostas são insuficientes diante de uma realidade marcada pela insegurança diária.

A direita compreendeu que o medo produz mobilização política muito mais rapidamente do que a esperança.

O esgotamento de um ciclo progressista

Há outro fator que não pode ser ignorado. Os governos progressistas latino-americanos obtiveram conquistas importantes ao longo das últimas duas décadas. Milhões saíram da pobreza. O acesso à educação aumentou. Houve ampliação de programas sociais e redução de desigualdades.

Mas muitos dos problemas estruturais permaneceram. A dependência da exportação de commodities, a baixa produtividade, a fragilidade industrial, a concentração da riqueza e a vulnerabilidade fiscal continuaram limitando o potencial de transformação dessas economias.

Quando o crescimento desacelerou, a insatisfação social reapareceu.

Em vários países, a direita conseguiu apresentar-se como alternativa de mudança justamente porque a esquerda passou a ser identificada com a administração do sistema existente. É uma ironia histórica. Forças políticas que chegaram ao poder prometendo ruptura passaram a ser vistas como defensoras do status quo.

A política contemporânea tornou-se cada vez menos uma competição entre programas técnicos e cada vez mais uma disputa por narrativas capazes de produzir identificação emocional. Quem consegue convencer as pessoas de que compreende seus medos, suas frustrações e suas aspirações parte com enorme vantagem. Mas essas narrativas não se difundem apenas pelos meios de comunicação ou pelas redes digitais. Elas dependem também de instituições capazes de construir vínculos permanentes com a população. E é nesse ponto que o papel desempenhado pelas igrejas evangélicas merece atenção especial.

A batalha cultural

Existe ainda uma dimensão frequentemente subestimada nesse processo. Durante décadas, a esquerda latino-americana construiu sua identidade política principalmente em torno da defesa dos direitos sociais, da redução das desigualdades e da ampliação da cidadania. Essas bandeiras continuam fundamentais, mas deixaram de ser suficientes para responder sozinhas às inquietações de uma sociedade profundamente transformada.

Nos últimos anos, questões relacionadas à segurança pública, ao sentimento de pertencimento, à identidade nacional, à religião, aos valores familiares e ao medo da desordem passaram a ocupar lugar central na vida cotidiana de milhões de pessoas. Em muitos casos, esses temas não receberam da esquerda a mesma atenção dedicada às pautas econômicas e distributivas.

O resultado foi a abertura de um espaço político que rapidamente passou a ser ocupado por lideranças conservadoras capazes de estabelecer vínculos emocionais com amplos setores populares. Mais do que apresentar programas de governo, essas lideranças aprenderam a falar a linguagem das emoções. Ofereceram narrativas simples para problemas complexos, transformaram inseguranças em identidade política e converteram sentimentos de medo, indignação e ressentimento em instrumentos de mobilização eleitoral.

Enquanto parte da esquerda continuava falando principalmente de indicadores econômicos, crescimento do PIB, distribuição de renda e políticas públicas — temas essenciais, mas frequentemente abstratos para quem enfrenta problemas imediatos — a nova direita passou a falar de proteção, ordem, pertencimento e reconhecimento. Em outras palavras, deixou de disputar apenas votos para disputar sentimentos.

Há ainda um componente que não pode ser ignorado nessa transformação: o crescimento das igrejas neopentecostais e sua crescente influência sobre a vida social e política da região.

Seria um equívoco interpretar esse fenômeno apenas como resultado da ação de lideranças religiosas conservadoras. O avanço dessas igrejas está profundamente ligado às transformações econômicas e sociais das últimas décadas. Em muitos bairros populares, elas passaram a desempenhar funções que anteriormente eram exercidas por sindicatos, associações comunitárias, organizações culturais e até pelo próprio Estado. Oferecem acolhimento, redes de solidariedade, apoio material, orientação espiritual e, sobretudo, um forte sentimento de pertencimento.

Enquanto parte da esquerda continuou concentrada nas instituições tradicionais da política, as igrejas evangélicas expandiram sua presença nos territórios, construindo vínculos permanentes com milhões de pessoas. Em muitos casos, tornaram-se o principal espaço de convivência coletiva disponível para trabalhadores precarizados, desempregados, pequenos empreendedores e moradores das periferias urbanas.

Essa presença social acabou produzindo também consequências políticas. Lideranças conservadoras compreenderam rapidamente a importância desses espaços e passaram a estabelecer alianças cada vez mais estreitas com setores religiosos. Temas como família, costumes, autoridade, disciplina, mérito individual e prosperidade econômica foram incorporados a uma narrativa política mais ampla que dialogava diretamente com valores presentes nessas comunidades.

Ao mesmo tempo, parte da esquerda mostrou dificuldade para compreender esse universo. Frequentemente tratou o crescimento evangélico apenas como uma ameaça política ou um fenômeno cultural conservador, sem perceber que ali também se expressavam demandas legítimas por reconhecimento, proteção, solidariedade e sentido de comunidade.

O resultado foi que um importante campo de disputa social e cultural acabou sendo ocupado quase integralmente pelas forças conservadoras. Com isso, a direita deixou de contar apenas com apoio eleitoral e passou a dispor de uma extensa rede capilar de influência cotidiana, capaz de moldar valores, identidades e comportamentos muito além dos períodos eleitorais.

O caso brasileiro

O Brasil talvez seja o exemplo mais interessante dessa disputa.

Apesar da vitória de Lula em 2022 e da recuperação de políticas públicas importantes, o bolsonarismo permaneceu socialmente forte. Mesmo após derrotas eleitorais, investigações, condenações judiciais, prisão de seu maior líder Jair Bolsonaro, a extrema direita continua mobilizando milhões de brasileiros.

Isso demonstra que a disputa não se encerra com a conquista do governo.

A esquerda brasileira conseguiu recuperar o poder. Ainda não recuperou a hegemonia cultural.

E talvez esteja aí uma das principais lições da experiência colombiana.

Nenhuma conquista é permanente. Nenhum avanço é irreversível. Nenhuma vitória eleitoral garante estabilidade política duradoura.

O que a esquerda precisa aprender

O avanço da direita na América do Sul não significa necessariamente que a população tenha se tornado mais conservadora em todas as questões. Significa, antes de tudo, que uma parcela crescente dos eleitores não está convencida de que as respostas oferecidas pela esquerda sejam suficientes para enfrentar os desafios do presente.

Ignorar essa realidade seria um erro.

A esquerda precisará voltar a dialogar com setores populares que se afastaram dela. Precisará apresentar respostas concretas para a segurança pública, para a geração de empregos, para a transformação produtiva e para as angústias cotidianas das famílias.

A alternativa é permanecer prisioneira da nostalgia de suas próprias vitórias.

Muito além da Colômbia

A derrota da esquerda na Colômbia não representa apenas uma mudança de governo. Ela é mais um capítulo de uma disputa muito maior que atravessa toda a América do Sul e, em grande medida, o próprio mundo.

Essa disputa também não pode ser compreendida apenas a partir das dinâmicas internas de cada país. O avanço da direita latino-americana ocorre em um contexto internacional marcado pela reorganização de redes políticas, financeiras, religiosas e digitais que operam para além das fronteiras nacionais. O fenômeno que levou Donald Trump de volta ao centro da política norte-americana, impulsionou Javier Milei na Argentina e fortaleceu movimentos conservadores em diversos países da Europa possui ramificações cada vez mais visíveis na América Latina.

As novas direitas aprenderam a atuar de forma articulada em escala internacional. Compartilham estratégias de comunicação, narrativas políticas, estruturas de financiamento e intensa presença nas plataformas digitais. Temas como combate ao chamado "globalismo", defesa de valores tradicionais, nacionalismo econômico seletivo, criminalização da esquerda e ataque às instituições democráticas passaram a circular com impressionante velocidade entre diferentes países. O resultado é a formação de uma espécie de internacional conservadora que, embora heterogênea, opera de forma muito mais coordenada do que frequentemente se imagina.

Seria um erro subestimar o significado desse avanço conservador. Mas seria igualmente equivocado enxergá-lo como uma marcha inevitável e irreversível da história.

A direita latino-americana cresce em um contexto marcado pela insegurança, pela estagnação econômica, pelo desencanto com as instituições e pela frustração de amplos setores da população. Sua força nasce da capacidade de canalizar medos reais e oferecer respostas aparentemente simples para problemas extremamente complexos.

Mas exatamente aí reside sua principal contradição.

A experiência recente mostra que vencer eleições é uma coisa; construir soluções duradouras é outra muito diferente. Governos que chegam ao poder prometendo eliminar a corrupção, derrotar o crime, restaurar a ordem e libertar a economia frequentemente descobrem que os problemas estruturais da América Latina são muito mais profundos do que seus slogans de campanha sugeriam.

A região continua convivendo com desigualdade extrema, baixa produtividade, dependência tecnológica, fragilidade industrial e concentração de renda. Nenhum desses desafios será resolvido por discursos de ódio, pela demonização de adversários políticos ou pela simples redução do papel do Estado.

A eleição colombiana, portanto, deve servir menos como motivo para resignação e mais como um alerta para reflexão. Se a direita avança, é porque conseguiu ocupar espaços que a esquerda deixou vazios. Se convence parcelas crescentes da população, é porque soube dialogar com angústias que muitas vezes foram negligenciadas.

O desafio das forças progressistas não é apenas resistir. É reconstruir um projeto capaz de combinar crescimento econômico, segurança, inclusão social, soberania nacional e esperança de futuro.

A história latino-americana ensina que nenhuma hegemonia é permanente. Nem a da esquerda, nem a da direita.

A maré conservadora que hoje avança pela região pode parecer poderosa. Mas ela também carrega dentro de si as contradições que inevitavelmente surgem quando promessas grandiosas encontram a dura realidade do governo.

A verdadeira questão, portanto, não é saber se a direita continuará vencendo eleições. A questão é saber quem será capaz de oferecer respostas concretas para os desafios de sociedades cada vez mais desiguais, fragmentadas e inseguras.

Quando esse momento chegar — e ele chegará — a esquerda precisará estar preparada não apenas para denunciar os erros de seus adversários, mas para apresentar um novo horizonte de transformação.

Porque, no fim das contas, eleições mudam governos. Mas são os projetos de futuro que mudam a história.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.