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Daniel Samam

Carioca, músico, educador, gestor cultural e militante do Partido dos Trabalhadores (PT)

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A farsa da guerra justa: uma resposta crítica ao editorial do Estadão sobre o Irã

Em vez de aplaudir a violência e a barbárie, a comunidade internacional e a sociedade civil devem condenar veementemente a agressão dos EUA e de Israel

Fumaça sobre Teerã, Irã (Foto: Majid Asgaripour/Agência de Notícias Wana/Reuters)

Em um editorial recente intitulado "Ninguém vai chorar pelo Irã", o jornal O Estado de S. Paulo adota uma postura de subserviência à narrativa imperialista para justificar a agressão militar dos Estados Unidos e de Israel contra a nação persa. O texto, que ecoa a retórica da administração Trump, apresenta o Irã como um "Estado pária" e celebra a violência como um caminho para a liberdade do povo iraniano. No entanto, uma análise crítica e aprofundada da questão geopolítica revela uma realidade muito mais complexa e sombria, que o editorial convenientemente ignora.

O posicionamento do jornal se baseia em uma série de premissas falsas e omissões graves. Ao classificar o Irã como um "Estado pária", o editorial ignora que a verdadeira razão do antagonismo é a recusa do país em se submeter à arquitetura de segurança colonial imposta pelo Ocidente, ousando afirmar sua autonomia política e estratégica em uma região que os EUA e Israel tratam como seu protetorado. A justificativa da agressão pela suposta ameaça nuclear também se mostra frágil, uma vez que o Irã não possui armas nucleares e aceita verificação internacional, enquanto Israel, uma potência nuclear clandestina e não inspecionada, jamais foi alvo de tal escrutínio. Por fim, a ideia de que a guerra trará liberdade ao povo iraniano é uma falácia perigosa; a história demonstra que bombardeios não produzem democracia, e que qualquer transição política legítima deve ser interna e soberana, não imposta por potências estrangeiras.

O ataque coordenado de 28 de fevereiro de 2026, que resultou na morte de centenas de civis, incluindo mais de 80 meninas em uma escola em Minab, é a mais recente e brutal manifestação de uma guerra híbrida que os Estados Unidos travam contra o Irã há décadas. Essa guerra inclui sanções econômicas que sufocam a população, o assassinato de líderes como o general Qassem Soleimani em 2020 e uma campanha de desinformação que busca deslegitimar o governo iraniano e preparar o terreno para uma intervenção militar.

A retórica da "guerra justa" e da "libertação" do povo iraniano, repetida à exaustão pela mídia hegemônica, serve para mascarar os verdadeiros interesses por trás da agressão: o controle geopolítico do Oriente Médio e de seus vastos recursos energéticos. A história recente, especialmente a desastrosa invasão do Iraque em 2003, já demonstrou que intervenções militares imperialistas não levam à democracia, mas sim à destruição, ao caos e ao fortalecimento de regimes autoritários.

É fundamental ressaltar que a crítica à agressão imperialista não implica em uma defesa do regime iraniano. O governo teocrático viola os direitos humanos. No entanto, a solução para os problemas do Irã não virá de bombas estrangeiras, mas da luta e da organização do próprio povo iraniano.

Em vez de aplaudir a violência e a barbárie, como faz o Estadão, a comunidade internacional e a sociedade civil devem condenar veementemente a agressão dos Estados Unidos e de Israel, exigir o fim das sanções e apoiar uma solução pacífica e negociada para o conflito. A paz e a estabilidade no Oriente Médio só serão alcançadas com o respeito à soberania das nações, à autodeterminação dos povos e ao direito internacional, e não com a imposição da vontade do mais forte.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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