A Educação de Henry Adams hoje ou O Império Assassino
Henry Adams pertenceu a uma das famílias mais ilustres dos Estados Unidos. Ele foi bisneto e neto de dois presidentes
No momento em que os Estados Unidos da América se revelam como inimigos da humanidade, lembrar daqueles que, dentro da tradição cultural norte-americana, foram críticos dos caminhos que este país estava tomando, muitas vezes já prevendo o que estaria por vir, pode ser de grande importância para compreender melhor o que vivemos hoje. E esta compreensão é fundamental para alimentar a resistência à destruição sem precedentes causada pelo império.
Henry Adams pertenceu a uma das famílias mais ilustres dos Estados Unidos. Ele foi bisneto e neto de dois presidentes – respectivamente John Adams, primeiro vice-presidente e segundo presidente dos EUA e John Quincy Adams, sexto presidente. Seu pai, Charles Francis Adams, foi embaixador na Inglaterra.
Quando Henry Adams nasceu em 1838, segundo David S. Brown, autor da biografia The Last America Aristocrat:
“ Sam Houston ocupava o cargo de presidente da República do Texas; a remoção da Nação Cherokee para o oeste do Mississippi deu origem à angustiante expressão ’Trilha das Lágrimas’ ; Frederick Douglass, portando os documentos de identificação de um marinheiro negro livre, escapou da escravidão; e Abraham Lincoln, então com vinte anos, discursou sobre ‘a perpetuação de nossas instituições políticas’ perante o Young Men’s Lyceum de Springfield, Illinois. Muitos cidadãos americanos mais velhos naquela época haviam sido súditos do Império Britânico (...).”
Em 1918, ano de sua morte, ainda segundo David S. Brown, “ poucas relíquias da república americana primitiva permaneciam. A Ford Motor Company vinha de seu melhor ano até então, vendendo a impressionante quantidade de 735.000 automóveis.”
Henry Adams presenciou a transformação dos EUA de um país agrícola numa potência industrial. E nos deixou um valioso testemunho sobre estes anos, sua autobiografia A Educação de Henry Adams .
Publicada em 1918, ano de sua morte, foi imediatamente reconhecida como uma das grandes biografias escritas nos Estados Unidos. A obra ganhou o prêmio Pullitzer de 1919 e foi colocada em primeiro lugar numa lista dos 100 melhores livros de não ficção em língua inglesa do século XX pela prestigiosa coleção Modern Library.
Mais do que uma autobiografia, é uma grande obra literária repleta de observações profundas e originais sobre o mundo do século XIX. Por exemplo: Henry Adams estudou na Alemanha no final dos anos 1850 e início dos anos 1860 e escreveu o seguinte sobre o incipiente nacionalismo alemão patrocinado pelo Estado que ele encontrou por lá:
“ Todo o sistema de ensino estatal funciona como uma espécie de dínamo para polarizar a mente popular; para orientar e manter suas linhas de força na direção considerada mais eficaz para os objetivos do Estado. O sistema alemão era terrivelmente eficiente. Seu efeito sobre as crianças era lamentável.”
Hoje sabemos no que deu a ‘terrível eficiência’ do sistema alemão.
Sobretudo, A Educação de Henry Adams tem coisas importantes a nos dizer sobre as transformações dos Estados Unidos no seu período de expansão, o que pode nos ajudar a compreender o seu atual perído de decadência.
A Política em Washington
Henry Adams conviveu intimamente com algumas das personalidades mais conhecidas e importantes dos Estados Unidos no século XIX e início do século XX. Foi amigo da escritora Edith Wharton e dos irmãos William e Henry James.
Devido às conexões de sua família, Henry Adams teve acesso aos círculos de poder dos EUA, frequentou presidentes e secretários de Estado e pode observar de perto o funcionamento das engrenagens do poder político norte-americano. Em A Educação de Henry Adams ele nos deixou algumas observações muito pertinentes e reveladoras sobre a organização do poder em Washington. Abolicionista, ele percebeu muito cedo a enorme força política dos escravocatas, comentando:
“O poder dos proprietários de escravos substituiu os reis da dinastia Stuart e os papas romanos.”
Ele também reconheceu que nos EUA:
“A política prática consiste em ignorar os fatos (...)”.
A administração de Donald Trump ignora os fatos de um modo que escandalizaria até mesmo um pessimista como Henry Adams.
Ignora a realidade da mudança climática e de suas consequências. De acordo com um artigo publicado no jornal britânico The Guardian (1):
“O enorme aumento nos gastos do Pentágono promovido por Donald Trump produzirá 26 megatoneladas (Mt) adicionais de gases que aquecem o planeta — o equivalente às emissões anuais de carbono (CO₂e) geradas por 68 usinas a gás ou por todo o país da Croácia, revela uma nova pesquisa.
O orçamento do Pentágono para 2026 – e sua pegada climática – deve disparar para US$ 1 trilhão graças à iniciativa ‘One Big Beautiful Act’ do presidente, um aumento de 17% em relação ao ano passado.
As emissões militares estão intimamente ligadas aos gastos militares.
A bonança orçamentária elevará as emissões totais de gases de efeito estufa do Pentágono para impressionantes 178 Mt de CO2, resultando em um prejuízo econômico estimado em US$ 47 bilhões globalmente, de acordo com uma nova análise do Climate and Community Institute (CCI), um think tank de pesquisa com sede nos EUA, compartilhada exclusivamente com o Guardian.”
Um estudo realizado pelo Conflict and Environment Observatory informa:
“As forças armadas são grandes consumidoras de energia e suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) contribuem significativamente para a crise climática. No entanto, os países não registram nem relatam sistematicamente suas emissões militares, de modo que a participação real dessa fonte de emissões permanece incerta. O Observatório de Conflitos e Meio Ambiente (CEOBS) e o Scientists for Global Responsibility estimam que as atividades militares diárias possam ser responsáveis por cerca de 5,5% das emissões globais, o que significa que, se as forças armadas do mundo fossem um país, seriam o quarto maior emissor do mundo. Além disso, à medida que os gastos militares aumentam e o resto da sociedade se descarboniza, essa proporção tende a crescer.
Fundamentalmente, o aumento dos gastos militares aumentará as emissões militares. A intensificação da produção militar para aumentar os estoques consome muita energia e embora os avanços tecnológicos em tecnologias militares de baixo carbono continuem limitados, o atual impulso às aquisições, aliado à dependência de tecnologias mais antigas e supostamente mais conhecidas e, portanto, consideradas confiáveis, significa que as forças armadas ficarão presas a equipamentos que consomem grandes quantidades de combustíveis fósseis, a serem utilizados nas próximas décadas. Um relatório recente da Agência Europeia de Defesa observou a falta de aquisições “verdes” padronizadas nas forças armadas da UE, com menos de 40% dos entrevistados relatando a existência de uma política de aquisições ‘verdes’; observando que ‘verde’ não significa necessariamente baixo carbono neste contexto. No entanto, constatou-se que os gastos militares contribuem para um aumento nas emissões, mesmo quando se leva em conta o progresso tecnológico no setor militar, contribuindo para o chamado efeito ‘esteira de destruição’, em que a dinâmica geral da militarização pode prejudicar o meio ambiente além dos impactos diretos. “ (2)
Henry Adams com muita clareza identificou aquilo que na política norte-americana leva à crescente militarização e a cada vez mais guerras:
“A política, enquanto prática, independentemente das suas pretensões, sempre foi a organização sistemática dos ódios (…).”
As duas facções que no sistema político dos EUA atendem pelo nome de Partido Democrata e Partido Republicano organizaram sistematicamente os ódios que hoje conduzem praticamente toda as ações do Governo dos EUA:
O ódio aos Palestinos e à toda luta anticolonial.
O ódio à Rússia , à China e ao Irâ.
O ódio aos imigrantes e aos afroamericanos. O ódio aos povos indígenas onde quer que se encontrem.
O ódio à Venezuela, à Cuba e a todos os países do Sul que ousam desafiar o império.
O ódio ao próprio planeta e a todas as suas formas de vida.
Ninguém atualmente pode negar que os Estados Unidos sistematicamente organizam o ódio em escala global.
A Imposição do Capitalismo
O capitalismo não é um sistema ‘natural’, ‘espontâneo’, como nos querem fazer crer. É um sistema imposto e Henry Adams registrou o momento histórico desta imposição:
“Durante cem anos, entre 1793 e 1893, o povo americano hesitou, vacilou, oscilou para frente e para trás, entre duas forças: uma meramente industrial, a outra capitalista, centralizadora e mecânica. Em 1893, a questão se resumiu ao padrão-ouro único, e a maioria finalmente se declarou, de uma vez por todas, a favor do sistema capitalista com toda a sua maquinaria necessária. Todos os amigos, todos os melhores cidadãos, reformadores, igrejas, faculdades, classes instruídas, haviam se unido aos bancos para forçar a submissão ao capitalismo; uma submissão há muito prevista pela mera lei das massas.
(…) Um sistema capitalista havia sido adotado e, para que funcionasse, precisava ser administrado pelo capital e por métodos capitalistas (…) toda a consolidação mecânica da força (…) criou monopólios capazes de controlar as novas energias que a América adorava. “
A ‘força meramente industrial’ para Henry Adams não era capitalista. Para ele apenas o que chamaríamos hoje de capitalismo financeiro era realmente capitalismo. O conflito entre o capitalismo industrial e o financeiro começou muito cedo na história dos EUA e Henry Adams percebeu que o capitalismo financeiro estava de fato organizando toda a sociedade. Ele escreveu:
“Após 1865, o mundo tornou-se um mundo dos banqueiros…”.
A desindustrialização atual dos EUA e da Europa Ocidental é um fato e sua origem está em escolhas feitas ainda no século XIX, como observadas por Henry Adams e não por acaso ele foi um dos primeiros nos EUA a perceber a importância das análises de Karl Marx sobre o capitalismo. Em A Educação de Henry Adams há várias menções a Karl Marx, como esta:
“(…) embora ele não tivesse a menor ideia de que Karl Marx estava ali esperando por ele, e de que, mais cedo ou mais tarde, o processo de educação teria de lidar com Karl Marx muito mais do que com o professor Bowen, do Harvard College, ou com Sua Majestade Satânica do livre-comércio, John Stuart Mill.”
O Desafio da Rússia
Muito relevante para o nosso tempo são as obervações de Henry Adams sobre a Rússia.
David S. Brown no livro citado acima escreveu:
“No que diz respeito às questões da guerra e do Império, Henry assumiu posições contraditórias. É possível encontrar em sua correspondência muitos comentários sinceros e fortemente críticos à expansão americana. (…) Em outros momentos, porém, o surgimento do poder americano o deixava orgulhoso.”
“Convencido do declínio da Grã-Bretanha e cético quanto ao alcance global da Alemanha, ele (Henry Adams) identificou a Rússia — com sua população em expansão, seu imenso território e seus vastos recursos — como o provável adversário futuro dos Estados Unidos. À medida que o antigo imperialismo entrava em declínio, ele estava determinado a ver por si mesmo que nova ameaça poderia surgir em seu lugar.”
Henry Adams visitou a Rússia e em sua autobiografia observou:
“A Rússia não tinha nada em comum com nenhum mundo antigo ou moderno conhecido pela história; ela fora a fonte mais antiga de toda a civilização na Europa (…).”
“No entanto, a Rússia era uma força demasiado vasta para ser tratada como algo irrelevante (…) e seu movimento poderia ser o verdadeiro movimento do futuro, em contraposição à aceleração precipitada e incerta da América.”
Que a Rússia possa ser uma fonte de civilização e que o seu movimento possa ser o verdadeiro movimento do futuro deve deixar trêmulos de raiva e indignação os muitos acadêmicos e analistas políticos atualmente à serviço do Império...
No entanto, foi o que Henry Adams vivenciou em Londres quando acompanhou seu pai como secretário da Embaixada dos EUA que nos oferece o mais interessante e revelador paralelo com o nosso tempo.
Como já mencionado, Charles Francis Adams, seu pai, foi embaixador em Londres no período da presidência de Abraham Lincoln e da Guerra Civil nos EUA. O Império Britânico estava em seu auge e a jovem república norte-americana estava muito fragilizada e em sua hora mais perigosa.
Lord Palmerston era então o Primeiro Ministro da Inglaterra e Lord John Russell o Ministro das Relações Exteriores. Embora oficialmente Lord Russell defendesse uma política de neutralidade, ele era simpatizante dos Confederados e segundo Henry Adams pretendia aproveitar a oportunidade da guerra na antiga colônia para dividir a jovem república:
“Cada ato de Russel, de abril de 1861 a novembro de 1862, demonstrou a mais clara determinação em desintegrar a União.”
Ainda segundo Adams, Russell estaria “empenhado em desmembrar a União como forma de enfraquecer um poder perigoso”.
Uma campanha de demonização de Abraham Lincoln e da União foi desencadeada em Londres para legitimar o apoio ao exército Confederado escravocrata e levar a cabo o desmembramento da União.
Como Henry Adams observou:
“Londres estava completamente fora de si em relação a um ponto em particular; criou seu próprio pesadelo e deu-lhe a forma de Abraham Lincoln. Por trás disso, colocou outro demônio, se possível ainda mais diabólico, e chamou-o de Sr. Seward. No que dizia respeito a esses dois homens, a sociedade inglesa parecia enlouquecida. A defesa era inútil; a explicação, vã; só se podia deixar que a paixão se esgotasse por si mesma. Os melhores amigos eram tão irracionais quanto os inimigos, pois a crença na brutalidade do pobre Sr. Lincoln e na ferocidade de Seward tornou-se um dogma da fé popular. “
William H. Seward foi o Secretário de Estado dos Estados Unidos no gabinete de Abraham Lincoln durante todo o seu mandato presidencial,
O Império Britânico, ciente de que a jovem república norte-americana seria um “poder perigoso” no futuro, tentou dividi-la e para isso lançou esta campanha de demonização de seu presidente Abraham Lincoln.
A tentativa fracassou mas os EUA aprenderam a lição dada pelo Império Britânico e no futuro, no nosso tempo, utilizaria o mesmo procedimento para enfraquecer os “poderes perigosos” , seus adversários, sobretudo Rússia e Irã.
A campanha de demonização contra Abraham Lincoln foi a precursora da campanha de demonização contra Vladimir Putin e o aiatolá Khamenei, a “ferocidade” de ambos já sendo “um dogma de fé popular”, habilmente alimentado pela grande imprensa.
E assim como o Império Britânico procurou “quebrar” a União, os EUA procuraram “quebrar” a Rússia e agora procuram “quebrar” o Irã. O objetivo imperial é o mesmo.
Henry Adams observou que “(…) se o Sr. Lincoln não era o que diziam que ele era – o que eram eles?”
Se Vlamidir Putin e o aiatolá Khamenei não forem o que os acadêmicos, cientistas políticos, parlamentares e a grande imprensa a serviço do Império afirman – então o que seriam eles?....
Abraham Lincoln, Vlamidir Putin, aiatolá Khamenei– todos considerados “brutais e ferozes”, todos vítimas da mesma campanha de demonização de um poder Imperial que se sente ameaçado e inseguro.
A Grã – Britanha mostrou a Henry Adams do que um Império é capaz.
A destruição causada pelas rivalidades imperiais no século XIX tampouco passou despercebida por ele:
“Desde 1850, os massacres tornaram-se tão comuns que a sociedade mal os notava, a menos que envolvessem centenas de milhares de vítimas, como na Armênia; as guerras tinham sido quase contínuas (…).”
E Henry Adams também compreendeu para onde levaria o progresso conduzido sob as forças do capitalismo financeiro tão desprezadas por ele:
“Será que o assassinato seria para sempre a última palavra do progresso? (…) O fracasso colossal do cristianismo atormenta a história.”
Palavras proféricas diantes do assassinato do aiatolá Khamenei junto de sua nora, de sua neta e de mais de uma centena de crianças mortas pela explosão de um míssil incendiário disparado contra uma escola por um Estado que ostenta com tanto orgulho tanto suas proezas tecnológicas quanto o seu cristianismo.
Franklin Frederick
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
