A disputa pelo futuro do Brasil: entre o projeto social de Lula e o ultra neoliberal entreguista de Flávio Bolsonaro
Crescimento com inclusão social ou aprofundamento absoluto da desigualdade: desta vez o povo terá uma escolha fácil
Os acontecimentos recentes envolvendo o caso do Banco Master, a CPMI do INSS e a reativação de práticas típicas do período lavajatista colocam novamente em evidência uma disputa política e versões que ultrapassa os fatos em si. Não se trata apenas de investigações ou crises institucionais isoladas, mas de um processo mais amplo de construção de percepções públicas capaz de influenciar o cenário eleitoral e a avaliação do governo.
Nesse panorama, torna-se fundamental comparar dois projetos políticos que se apresentam ao país: de um lado, o modelo de desenvolvimento social defendido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ancorado em políticas públicas e redistribuição de renda, de outro, a proposta ultra neoliberal associada ao campo bolsonarista, hoje representada na figura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A compreensão dessa diferença é essencial para avaliar os riscos e possibilidades que se colocam diante da sociedade brasileira.
Os últimos desdobramentos relacionados ao Banco Master e à CPMI do INSS revelam um cenário em que a disputa política se mistura à produção seletiva de escândalos. No caso da CPMI, A oposição tentou associar o governo atual às fraudes investigadas, apesar de já estar amplamente documentado que o esquema de descontos indevidos sobre aposentadorias teve origem em administrações anteriores, especialmente durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro.
Paralelamente, observa-se uma atuação intensa da mídia corporativa, com destaque para a Rede Globo, que em determinados momentos reproduz métodos que marcaram o período da Operação Lava Jato a partir de vazamentos seletivos, construção de suspeitas antecipadas e amplificação de argumentos que sugerem irregularidades antes mesmo de qualquer conclusão investigativa.
Nesse ambiente, passaram a ser exploradas as relações dos ministros do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli e Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro, bem como o fato de o presidente Lula tê-lo recebido em reunião fora da agenda oficial. Vale recordar que o próprio presidente já havia esclarecido que o encontro ocorreu na presença de Gabriel Galípolo, então diretor do Banco Central, do ministro da Casa Civil, Rui Costa, e do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Segundo Lula, foi informado a Vorcaro que não haveria qualquer tipo de perseguição política contra a instituição financeira, mas que as investigações ocorreriam com rigor técnico e, caso irregularidades fossem comprovadas, o banco responderia por elas.
Apesar dessas explicações, comentaristas da GloboNews insistiram em destacar que o encontro teria sido solicitado pelo ex-ministro do governo Lula em 2006, Guido Mantega. A tentativa de sugerir irregularidade, entretanto, carece de fundamento lógico, a presença de Mantega até então no conselho do Master explica naturalmente sua intermediação.
Quando as críticas da mídia independente começaram a evidenciar a inconsistência dessas associações, a cobertura dos veículos da mídia tradicional passou a mencionar sub-repticiamente, alguns personagens com vínculos efetivamente mais robustos com o banqueiro.
Entre esses personagens estão figuras centrais do Centrão e da extrema direita. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, que em 2024 apresentou uma emenda ao Senado propondo ampliar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos para R$ 1 milhão, medida celebrada por Daniel Vorcaro por favorecer instituições financeiras de médio porte, como o próprio Banco Master. Outro nome citado é o de Antônio Rueda, presidente do União Brasil, identificado como um dos apoiadores do banco e articulador de iniciativas destinadas a mobilizar instituições públicas para socorrer entidades privadas em dificuldades financeiras.
Também aparecem com vínculos estreitos com Daniel Vorcaro, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB-DF) e o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL-RJ). Foi apontado que o Banco de Brasília (BRB), controlado pelo Governo do Distrito Federal, adquiriu carteiras de crédito podres do Banco Master, cujas operações teriam alcançado valores superiores a R$ 12 bilhões, incluindo a compra de ativos considerados problemáticos do banco. Em março de 2025, o BRB chegou a avaliar a possibilidade de adquirir o Banco Master. Já o estado do Rio de Janeiro, por meio da Rioprevidência, aplicou aproximadamente R$ 1 bilhão em títulos do Banco Master entre 2024 e 2025, mesmo diante de advertências do Tribunal de Contas estadual sobre os riscos da operação e a situação financeira delicada da instituição.
Além disso, investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal examinam transações envolvendo a consultoria AA&M Ltda., fundada por Antônio Carlos Magalhães Neto também vice-presidente do União Brasil, que recebeu cerca de R$ 3,6 milhões provenientes do Banco Master e da empresa Reag no final de 2022.
Outro episódio envolve o escritório Ibaneis Advocacia, que celebrou contrato com a empresa Reag Legal Claims para comercialização de direitos creditórios relativos a honorários advocatícios derivados de precatórios com valor nominal aproximado de R$ 38 milhões.
Curiosamente, esses personagens raramente recebem o mesmo destaque nos noticiários da Globo, ao contrário das sistemáticas tentativas de associar o caso Master ao STF. Também não mencionam que Daniel Vorcaro, em um evento do jornal Valor Econômico, do Grupo Globo, patrocinado pelo Banco Master, foi apresentado como um empresário bem-sucedido e uma figura proeminente em eventos relevantes do mercado financeiro brasileiro.
Mesmo diante desse quadro, parte da cobertura insiste em sugerir que eventuais tensões envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal refletiriam diretamente sobre o governo Lula. O argumento utilizado é que, diante de um Congresso majoritariamente oposicionista, o Executivo teria recorrido ao STF para viabilizar decisões favoráveis. Essa interpretação, contudo, ignora um aspecto fundamental de que as crises institucionais do Supremo pertencem ao próprio Supremo. Não há evidências de envolvimento do governo nas operações do Banco Master. Pelo contrário, foi a atuação do Banco Central, com absoluta aquiescência do Executivo que deflagrou a liquidação da instituição e abriu caminho para investigações conduzidas pela Polícia Federal.
Nesse ponto, insere-se também um fenômeno político mais amplo: a tentativa sistemática da direita e da extrema direita, especialmente do bolsonarismo de demonizar e descredibilizar o STF após os julgamentos que atingiram os responsáveis pelos atos golpistas. Inconformados com as decisões da Corte, esses setores passaram a tratar o tribunal como inimigo político e chegaram a atuar junto ao presidente norte-americano Donald Trump para estimular medidas hostis ao Brasil, como tarifas comerciais escorchantes e o uso da chamada Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, relator dos processos que responsabilizaram os envolvidos na tentativa de ruptura institucional e que culminaram na prisão de Jair Bolsonaro.
Paradoxalmente, o grau de cinismo político torna-se ainda mais evidente quando o próprio bolsonarismo, responsável por estimular o confronto com o STF, passa a ensaiar um discurso de conciliação. Segundo noticiado na mídia, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) estaria estudando a divulgação de uma carta aberta à nação intitulada “Carta pela Paz no Brasil” com o objetivo de propor uma suposta pacificação entre os Poderes da República e buscar um acordo com o STF.
À luz desses fatos, a pesquisa Quaest divulgada recentemente evidenciou o impacto político dos últimos acontecimentos e das narrativas que se consolidaram em torno deles. O levantamento indica, pela primeira vez, um empate numérico entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno, ambos com 41% das intenções de voto. Segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest, parte do eleitorado não consegue associar diretamente as políticas públicas implementadas pelo governo às melhorias concretas em renda e emprego.
Outro aspecto ressaltado por Nunes que poderá influenciar será o posicionamento e moderação dos candidatos. Na pergunta “o que te dá mais medo hoje: Lula continuar ou a família Bolsonaro voltar?” Lula aparece 42% mais moderado que o PT e 43% como não mais moderado que o PT. Flávio Bolsonaro aparece com 38% mais moderado que sua família, e aparece 48% como não mais moderado que sua família. Para Nunes os eleitores em disputa valorizarão a posição moderada.
Diante da repercussão dos resultados da pesquisa Quaest é necessário historicizar a ascensão de Flávio Bolsonaro como possível candidato competitivo, considerando os inúmeros questionamentos sobre sua trajetória política. O senador já foi alvo de acusações relacionadas ao chamado esquema das “rachadinhas”, investigação que apontava para a apropriação de parte dos salários de assessores quando ele exercia mandato de deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O Ministério Público fluminense estimou que cerca de R$ 6 milhões teriam sido movimentados nesse esquema, cujo operador seria Fabrício Queiroz, ex-assessor e motorista do parlamentar. Decisões posteriores do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal anularam provas obtidas durante a investigação e reconheceram o foro privilegiado do senador, o que resultou no arquivamento do processo sem julgamento de mérito, embora a possibilidade de reabertura permaneça caso surjam novas evidências. Outras suspeitas envolveram operações financeiras ligadas a uma franquia da rede Kopenhagen e à empresa Bolsotini Chocolates e Café, além de questionamentos sobre a compra de uma mansão avaliada em cerca de R$ 6 milhões em Brasília, cuja compatibilidade com a renda declarada do senador foi amplamente debatida. Mais recentemente, a Operação Anomalia da Polícia Federal prendeu Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário de Esportes do governo Cláudio Castro, acusado de vínculos com o Comando Vermelho. Carracena era considerado aliado político de Flávio Bolsonaro e havia sido indicado por ele para o cargo.
Nesta materialidade é também imprescindível sinalizar as diferenças de postura institucional entre Lula e os Bolsonaros. A postura adotada pelo presidente Lula diante de suspeitas envolvendo familiares também evidencia um contraste político relevante. Durante as investigações da CPMI do INSS em que o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, foi citado, Lula declarou ao ser questionado pela imprensa sobre o assunto que disse ao filho o seguinte: "Só você sabe a verdade”, "se tiver alguma coisa, vai pagar o preço", se for inocente, se defenda”. Ao fim e ao cabo restou provado que a divulgação irregular de seu sigilo bancário de Fábio Luís acabou desmontando as suspeitas levantadas pela oposição, que teriam caráter predominantemente eleitoral.
A postura do presidente Lula diferiu completamente do comportamento de Jair Bolsonaro quando este ocupou a Presidência da República. Numa reunião ministerial tornada pública, Bolsonaro afirmou que estaria disposto a substituir chefias da Polícia Federal caso a instituição avançasse sobre investigações envolvendo seus filhos.
Para além das controvérsias pessoais, o que está em jogo é um projeto de país. As propostas associadas ao campo bolsonarista apontam para uma agenda ultra neoliberal inspirada em experiências recentes como a do governo de Javier Milei na Argentina. Entre as propostas divulgadas sobre o programa de governo que está sendo elaborado pelo Senador Rogério Marinho para sustentar a campanha de Flávio Bolsonaro é prevista uma nova reforma trabalhista com ampliação da jornada e redução de direitos e alterações profundas na Previdência Social, incluindo a possibilidade de elevar a idade mínima de aposentadoria para 70 anos, além da previsão de mudanças nas regras que vinculam benefícios previdenciários ao salário mínimo. O plano também anuncia um amplo programa de privatizações que poderá alcançar cerca de 95% das empresas estatais brasileiras.
Acerca das privatizações, experiências antigas e recentes mostram os efeitos problemáticos desse tipo de política, a exemplo da Vale do Rio Doce, vendida pelo governo Fernando Henrique Cardoso, por um valor vergonhosamente irrisório; a indevida privatização, pelo governo de Jair Bolsonaro, das Subsidiárias da Petrobras (TAG, BR Distribuidora) por reduzir a capacidade da estatal brasileira de enfrentar os efeitos da atual crise no Oriente Médio, associada ao conflito no Irã, especialmente ao enfraquecer o controle sobre a logística, os custos de transporte e a distribuição final de combustíveis; no plano estadual, a privatização da Sabesp, realizada pelo governo do bolsonarista Tarcísio de Freitas em São Paulo, resultou em aumento significativo de tarifas sem melhorias equivalentes na qualidade dos serviços. Situação semelhante ocorre em sistemas de transporte concedidos à iniciativa privada, que passaram a registrar falhas recorrentes, atrasos e acidentes. No Rio Grande do Sul, a privatização da antiga CEEE, vendida por apenas cem mil reais para o Grupo Equatorial, no governo de Eduardo Leite, então filiado ao PSDB, tem sido alvo de críticas devido ao desempenho considerado um dos piores entre distribuidoras de energia do país, com interrupções frequentes e atendimento precário aos consumidores.
Outra dimensão temerária de um governo ultra neoliberal entreguista diz respeito à política externa, uma ameaça à soberania do país. Setores da direita e extrema direita brasileira têm demonstrado crescente alinhamento com os interesses estratégicos dos Estados Unidos. Em outubro de 2025, por exemplo, Flávio Bolsonaro chegou a sugerir que os Estados Unidos poderiam realizar ataques contra embarcações de traficantes na Baía de Guanabara, inspirando-se em operações militares realizadas por forças americanas no Pacífico. A declaração levantou preocupações sobre possíveis implicações para a soberania nacional. Em um posicionamento completamente contrário, o governo sob a liderança do presidente Lula, ao observar o país que governava sob ameaça do império estadunidense, declarou que o Brasil é um país soberano e que não aceita "insultos, ofensas ou arrogância de ninguém", ressaltando que "o Brasil tem um único dono: o povo brasileiro".
Nesse horizonte desafiador, os dados de opinião pública revelam uma tarefa adicional para o governo. Os resultados da pesquisa Quaest também apontam para dificuldades do governo em comunicar de maneira incisiva suas realizações, o que evidencia a comunicação política como desafio central do atual momento. Apesar de indicadores econômicos positivos, do pleno emprego, do aumento da renda e da retomada de investimentos públicos, parte da população não associa essas melhorias diretamente à ação governamental.
É imprescindível reiterar junto ao povo brasileiro, o programa consistente de reconstrução social revelado pelo conjunto de políticas implementadas pelo atual governo. Nessa perspectiva, destacam-se inúmeras iniciativas governamentais concretizadas, entre as quais se incluem: a retirada do Brasil do mapa da fome, a ampliação do programa Mais Médicos, a gratuidade integral dos medicamentos do Farmácia Popular, o recorde de cirurgias eletivas realizadas pelo SUS, programa gás do povo, a modernização do SAMU, a expansão do ensino integral para mais de um milhão de estudantes, a criação do programa Pé-de-Meia, a implantação de novos campi universitários e institutos federais, os investimentos para fortalecimento da indústria, a aprovação da reforma tributária e da proposta de isenção do Imposto de Renda para rendimentos de até R$ 5 mil. Outro contraste entre as entregas e planos futuros do governo: enquanto a proposta de governo bolsonarista pretende fazer outra reforma trabalhista para precarizar mais ainda a situação do trabalhador, o governo de Lula coloca como bandeira a eliminação da opressiva escala 6x1, considerada aviltante para os trabalhadores. Em seu conjunto, essas políticas demonstram a existência de um projeto de desenvolvimento orientado à redução das desigualdades sociais, à ampliação de oportunidades e ao fortalecimento do Estado social brasileiro
Assim, o debate político que se anuncia no país ultrapassa disputas conjunturais. A disputa política trata de uma escolha entre dois caminhos distintos para o país. De um lado, um projeto que busca combinar crescimento econômico, inclusão social e fortalecimento das políticas públicas. De outro lado, a proposta de uma agenda ultra neoliberal baseada em privatizações em massa, na redução de direitos sociais e na submissão aos interesses do imperialismo, a exemplo da Argentina que, sob o governo ultraliberal de Javier Milei, figura controversa e amplamente criticada, tem sido marcada pelo avanço da fome e pelo aumento da pobreza extrema.
De um lado, um projeto que busca conciliar crescimento econômico, inclusão social e fortalecimento das políticas públicas. Do outro, uma agenda ultra neoliberal voltada a privatizações em massa, à redução de direitos sociais e à submissão aos interesses do imperialismo, como mostra a Argentina, sob o governo controverso de Javier Milei, marcada pelo avanço da fome e pelo aumento da pobreza extrema. A diferença entre os dois caminhos não poderia ser mais clara, um privilegia o povo, o outro expõe a população às consequências da barbárie de uma austeridade fiscal insana.
Diante desse cenário, torna-se fundamental que a sociedade compreenda não apenas os escândalos amplificados no debate público, mas também os interesses políticos e econômicos que moldam essas formulações. Romper com a desinformação e tornar visíveis os resultados concretos das políticas públicas será decisivo para que o eleitorado possa avaliar, com clareza, qual projeto de país deseja para seu futuro.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



