A direita não existe mais e a esquerda não sabe o que fazer
Da escalada autoritária à prisão, uma reflexão sobre o avanço da extrema-direita e a crise de identidade da esquerda no Brasil
A pesquisa publicizada hoje ou ontem, que apresenta o senador Flávio Bolsonaro como um candidato que pode, num segundo turno, vencer o presidente Lula, me colocou para pensar.
Lembrei de um vídeo disponível no YouTube, publicado pelo jornalista Bob Fernandes, denominado: “Bolsonaro pregou tortura, ditadura, morte, enfim está preso, e a extrema-direita segue seu rumo”. Todos aqueles que pensam em votar em Flávio Bolsonaro, que ainda têm alguma simpatia pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e pelos seus posicionamentos, deveriam ouvir o brilhante jornalista e, se necessário, ouvir novamente.
Após ouvir e refletir sobre os fatos narrados, aquele que ainda entender que Bolsonaro e o bolsonarismo o representam não me serve, pois não me servem os canalhas.
Minha geração convive e sempre conviveu respeitosamente com o pessoal da direita democrática, com os liberais do PSDB e até mesmo com o pessoal do centrão; contudo, a extrema-direita, repito, não me serve e, pelo andar da carruagem, não há mais direita.
Vamos lá, vou tentar resumir o que Bob falou, com enorme felicidade, para sustentar a minha afirmação de que a direita não existe mais.
Ele começa lembrando que, no segundo semestre de 1987, a revista Veja trouxe matéria, nunca desmentida, contando ao leitor que Jair Bolsonaro ameaçou explodir bombas nos quartéis e na adutora do “Rio Guandu”, no Rio de Janeiro, como forma de protesto pelos baixos salários pagos aos militares.
Um ano depois, o Superior Tribunal Militar o puniu por dar entrevistas sem autorização — não pela ameaça de atentados terroristas com bombas. A pena foi de 15 dias de prisão e expulsão do Exército. A pena foi abrandada pelo Superior Tribunal Militar; assim, Jair Bolsonaro foi para a reserva sem ser expulso do Exército.
Em 1964, com a ditadura no Brasil, o poeta Eduardo Alves da Costa, inspirado pela história do Brasil e da humanidade, escreveu a poesia No caminho com Maiakovski:
“Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim, e não dizemos nada.
Na segunda noite já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada".
O mau militar, após a prisão e a “aposentadoria” compulsória, elegeu-se vereador em 1988 e deputado federal em 1990.
Em 1999, Bolsonaro, já deputado, pregou na TV Band do Rio um golpe de Estado e uma guerra civil para matar “uns 30 mil”, começando por Fernando Henrique Cardoso; defendeu a tortura e as ditaduras. A comissão de ética da Câmara dos Deputados não disse nada, nem fez nada; inclusive o Exército não fez nada.
O tempo passou e o medíocre deputado, num lamentável episódio, afirmou que não estupraria a deputada Maria do Rosário porque ela “não mereceria”. Disse também que usava dinheiro público para “comer gente” e que seus filhos não namorariam Preta Gil, filha do cantor e compositor Gilberto Gil, por serem “bem educados”. Declarou também que preferia ter um filho morto a ter um filho homossexual.
Muita gente achou engraçado; o incivilizado “faturou” politicamente e declarações repugnantes alavancaram a sua popularidade, e os poderes públicos nada fizeram, nem a PGR, que deveria zelar pelo antirracismo e pela comunidade LGBTQIA+.
Noutra celebração à barbárie, da tribuna da Câmara, elogiou o capitão Adriano da Nóbrega quatro dias após sua condenação por assassinato. Também nada foi feito. Seu filho, então deputado e hoje pré-candidato à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro, homenageou Adriano com a Medalha Tiradentes enquanto este estava preso, e familiares de Adriano e de Fabrício Queiroz — “operador financeiro” da família Bolsonaro nas rachadinhas — foram empregados em gabinetes parlamentares da família. O Ministério Público do Rio tentou investigar, mas não houve conclusão efetiva, graças à decisão do ministro Dias Toffoli.
Na noite do impeachment, Bolsonaro elogiou o torturador Brilhante Ustra. A Câmara e os demais poderes nada fizeram.
Na eleição de 2018, pregou “fuzilar a petralhada” e ameaçou mandar adversários para a Ponta da Praia, referência à “Restinga da Marambaia”, local associado à repressão na ditadura. Nada foi feito.
Ele e seu núcleo familiar compraram ao menos 51 imóveis, muitos em dinheiro vivo, segundo denúncias, parte, em tese, vinculada às chamadas “rachadinhas”. Muito se escreveu sobre isso, mas nada aconteceu; nem sei se houve investigação séria.
Na pandemia, fez política com a vida e com a morte, debochou das vítimas, ignorou ofertas da Pfizer e atrasou a compra de vacinas. Mais de 700 mil morreram; centenas de milhares poderiam estar vivos. A CPI apontou responsabilidades, mas nada ocorreu.
Bolsonaro tentou embolsar joias sauditas e ainda não foi julgado por isso.
Por anos atacou o STF e ameaçou dar um golpe de Estado; incentivou atos por intervenção militar e contou com omissão ou apoio de militares. Durante 60 dias após as eleições, quartéis abrigaram manifestações golpistas.
Em 11 de novembro de 2022, comandantes militares assinaram nota conjunta apoiando manifestações que continuaram mesmo após o ataque à sede da Polícia Federal no dia da diplomação de Lula e Alckmin, e mesmo após a tentativa de explodir um caminhão-tanque próximo ao aeroporto de Brasília na noite de Natal de 2022.
Bolsonaro apresentou a comandantes minuta de decreto de estado de sítio ou de defesa para intervir no TSE. Segundo denúncias, militares das forças especiais teriam tramado assassinatos de Lula, do vice Alckmin e do então presidente do TSE, Alexandre de Moraes.
Em 8 de janeiro de 2023, o Brasil assistiu ao ataque e à destruição das sedes dos três Poderes. Eu estava na Terra do Fogo, arquipélago no extremo sul da América do Sul, recebendo informações pelo WhatsApp de amigos e amigas assustados com os fatos.
Tentaram minimizar os fatos, dizendo que eram “velhinhas inocentes”. Tancredo Neves qualificaria esses como “Canalhas, canalhas, canalhas!”.
Bolsonaro e alguns militares foram condenados. Ele tentou arrancar a tornozeleira eletrônica. Seus filhos chegaram a defender ação militar dos Estados Unidos contra o Brasil.
Desde 25 de novembro de 2025, Bolsonaro começou a cumprir pena em regime fechado na sede da Polícia Federal em Brasília; hoje está na conhecida “Papudinha”.
A direita no Brasil não existe mais; foi absorvida pela extrema-direita e, a meu juízo, a esquerda não sabe o que fazer, pois perdemos a capacidade comunicativa.
Há tanto a ser dito, mas concluo, como Bob Fernandes, retomando Eduardo Alves da Costa:
“E por temor eu me calo.
Por temor aceito a condição de falso democrata
e rotulo meus gestos com a palavra liberdade,
procurando num sorriso esconder minha dor diante dos meus superiores.
Dentro de mim, com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita: mentira".
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
