Danilo defende papel na Seleção e rebate debate sobre titularidade: "não existe"
Veterano do Brasil afirma que divisão entre titulares e reservas perdeu sentido no futebol atual e diz entender cobranças antes da estreia contra Marrocos
247 - Cotado para iniciar a estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo contra o Marrocos, no sábado (13), às 19h, Danilo afirmou que encara com naturalidade as críticas à sua presença no grupo e defendeu que o futebol atual já não comporta uma separação rígida entre titulares e reservas. Aos 34 anos, o jogador do Flamengo chega ao terceiro Mundial da carreira em um contexto diferente dos anteriores, com a possibilidade de ocupar a lateral direita após as lesões de Militão e Wesley.
As informações são do GE, que entrevistou Danilo antes do embarque da Seleção para os Estados Unidos. Provável titular na estreia, o defensor reconheceu os questionamentos externos, mas afirmou que cabe a ele responder dentro de campo. “É totalmente compreensível. Cabe a mim trabalhar, demonstrar importância, responder em campo e tentar ganhar. Quando se ganha, todas as dúvidas e contestações são sanadas. Eu entendo com muita tranquilidade. Talvez se eu estivesse do outro lado, sem entender todos os aspectos, pensaria a mesma coisa”, declarou.
Danilo chega ao Mundial de 2026 em busca de uma trajetória mais completa em Copas. Embora tenha sido nome frequente nos ciclos anteriores, conviveu com lesões em 2018 e 2022 e acumula apenas quatro partidas e 372 minutos em Mundiais. Em 2018, ficou fora do duelo contra a Bélgica, nas quartas de final, por lesão. Em 2022, participou da campanha que terminou na eliminação diante da Croácia.
Ao comentar a nova oportunidade, o jogador afirmou que a maturidade mudou sua forma de enxergar a competição. “Vida, né?! A capacidade de se adaptar aos momentos e oportunidades. Quando eu comecei lá atrás, imaginava que poderia jogar três Copas do Mundo, mas pensava em 2014, 2018, 2022. Seria minha idade mais produtiva como atleta, digamos assim. Vim até 2026 em uma outra concepção”, disse.
“Foi uma jornada maravilhosa. Poder participar desta terceira me faz pensar o quanto o tempo é importante na vida. O tempo te faz analisar melhor as situações, ver como você poderia ter gerido tal situação, ter sido importante para o grupo em situação específica. Chego no melhor momento mental possível para colaborar para a posição”, acrescentou.
Para Danilo, a crítica à sua convocação parte de uma visão tradicional sobre o funcionamento das equipes. O defensor argumentou que, no futebol contemporâneo, a composição do time depende mais das características de cada partida do que de uma hierarquia fixa no elenco.
“Eu sempre digo que o futebol é um recorte do todo da vida. A gente, neste momento, precisa justificar tudo, precisa, de certa forma, estar se provando todos os dias. Muito mais do que ser, ainda parecer ser, o que é uma coisa engraçada. Eu entendo completamente, porque as pessoas sempre pensaram isso de que o jogador para estar na Seleção tem que ser o principal jogador do contexto do time dele. Mas os tempos mudaram, e a concepção de um grupo vai além disso”, afirmou.
“Muitas vezes as pessoas que analisam futebol, por má vontade, entendem que há titular e os que não jogam. A concepção de futebol hoje vai muito além disso. No Flamengo, a cada jogo vai o time que é mais apto para aquele tipo de adversário, mas insistimos em falar titular e reserva, o que não existe em lugar nenhum. Eu entendo que as pessoas enxerguem desta maneira, principalmente o torcedor”, completou.
O jogador também afirmou que as experiências negativas em Copas anteriores se transformaram em aprendizado. Segundo ele, as frustrações ajudaram a moldar uma postura mais atenta, tanto em campo quanto na convivência com o grupo.
“Enxergo toda crise como uma oportunidade. Vivi aprendizados importantes de tudo. Desde a forma como abordar o lance em um treinamento, que foi como eu me machuquei e fiquei fora contra a Bélgica. Desde pensar como ser mais influente no grupo para, em 2022, chamar todo mundo e falar que era o momento de defender. Desde passar a tranquilidade para um jogador mais jovem, que é o que eu faço agora. Os momento difíceis são importantes para a gente fazer diferente”, disse.
Danilo também relatou o episódio em que recebeu a confirmação antecipada de sua convocação, em março. Segundo ele, a notícia chegou de maneira inesperada, enquanto se preparava para treinar.
“Foi curioso. Eu desenvolvi uma ligação com o Mister muito importante por vários fatores, pela forma de trabalhar, pela seriedade, pela humildade dos grandes. Ele é um cara muito grande, que se coloca no lugar de todo mundo. Eu estava no quarto me preparando para o treino e costumo assistir às entrevistas coletivas, mas nesse dia não assisti, estava fazendo outra coisa. Quando eu peguei o telefone, estava cheio de mensagens de parabéns, rede social e eu pensei: ‘O que aconteceu? Não estou entendendo nada’. Aí que eu fui ver. Saí dali e fui treinar com o dedo cruzado”, contou.
“No vestiário, o Mister me falou: ‘Começaram a falar um monte de coisa, eu disse que você ia e pronto’. Eu falei que poderia ter me avisado (risos). É um episódio bacana, reconhecimento de um trabalho, de uma importância que dificilmente tem esse reconhecimento. Nós temos que dar satisfação para coisas que as pessoas não estão vendo. O Mister, pelo tamanho que tem, por ser correto, pensa nas decisões corretas, e é satisfatório para mim ter esse episódio”, acrescentou.
Além do aspecto técnico, Danilo destacou a importância de sua atuação nos bastidores. O defensor afirmou que sua liderança foi construída ao longo da carreira, a partir da convivência com jogadores experientes e referências em diferentes clubes e seleções.
“Primeiro, eu preciso jogar, preciso estar no campo e responder. E a minha carreira, esse período no Flamengo respondem por si só. Não são poucos jogos, é bastante. Conquistamos, pude jogar jogos importantes, jogos de nível europeu e me senti superbem para isso. Quanto a isso, não tenho o menor problema quanto a mim mesmo. Se tivesse, poderia estremecer e surgiriam as dúvidas”, afirmou.
O jogador citou nomes com os quais conviveu ao longo da carreira, como Sérgio Ramos, Pepe, Cristiano Ronaldo, Kompany, Chiellini, Bonucci e Buffon, além de referências familiares. Para ele, liderança não se resume a falar, mas também a saber escutar.
“Uma coisa que eu aprendi foi a ouvir. Muitas vezes, acham que o líder é aquele que fala muito. Eu busco ouvir, entender o lado do outro e aí, sim, conseguir dar um direcionamento e abordar. Escutamos muito pouco enquanto sociedade. No futebol também. Eu tento escutar, abordar, ouvir a história de vida, o que cada um está passando. E sou um cara que não relaxa nunca. Eu treino como jogo, lido com os horários como jogo, academia como jogo. Essa é a mentalidade que aprendi e trouxe até aqui”, declarou.
Danilo também avaliou a relação entre torcida e Seleção Brasileira. O jogador afirmou que compreende a cobrança por resultados e espetáculo, mas ponderou que os atletas precisam lidar de maneira racional com momentos de pressão.
“O gap entre aquilo que é a essência do futebol. A paixão, o fanatismo, e o negócio da indústria do futebol ficou grande. A gente já parte por aí. Uma coisa importante a se fazer é que nós, atletas, sejamos mais racionais quanto a isso. Não dá para esperar que o torcedor seja calmo e tranquilo quando o Brasil não ganha, quando não dá espetáculo. Eu, como torcedor, também esperava isso. O torcedor é passional, vai ser assim e tem que ser assim”, disse.
“Cabe a nós, enquanto atletas, entender e tentar que isso não tenha tanto peso voltado para nós. Quer dizer que não importa? Não é isso. Mas o momento de negatividade temos que entender que é para o torcedor que quer show. Nós temos que entender que é um momento, porque os resultados não estão acontecendo. Quando acontecer, vamos conectar naturalmente”, completou.
Sobre as chances do Brasil na Copa, Danilo apontou a qualidade do elenco e a experiência de Carlo Ancelotti como fatores de confiança. Ele citou jogadores como Vini, Raphinha, Bruno, Marquinhos e Gabriel Magalhães, além da trajetória vencedora do treinador.
“Primeiro, temos jogadores importantes e jogadores dos melhores times do mundo em momentos incríveis. Vini, Raphinha, Bruno, Marquinhos, Gabriel Magalhães... Temos gente importante. Temos um treinador que está habituado a vencer. Algumas coisas no futebol não se explica. Não adianta falar isso ou aquilo. O Mister é super vitorioso, são vivências, e ele tem aura. Isso está do nosso lado agora e é importante”, afirmou.
O defensor também ressaltou que o Brasil precisará competir com pragmatismo, sem abrir mão das características históricas do futebol brasileiro. Para ele, a Seleção deve encontrar um ponto de equilíbrio entre organização e criatividade.
“Temos que ser competitivos e isso independe de como. Isso não temos que encontrar. O Brasil, durante um tempo, acreditou muito que o talento por si só resolveria, o jogador brasileiro, e depois de muito tempo entendemos que não bastava só o talento. Aí, fomos numa linha muito europeia de imitar e saímos para um lado muito europeu, o que deu uma travada. O segredo é encontrar um equilíbrio do critério europeu, do pragmatismo europeu, mas também com o jogo bonito, a alegria, a inventividade do jogador brasileiro para vencer”, disse.
Danilo ainda comentou as novas regras de conduta previstas para a Copa, defendendo que o futebol não pode ser tratado como um espaço separado da vida social. “Muitas vezes o futebol tem a mística de que é um ambiente que pode tudo, e está fora da vida normal. Não. É um segmento, um recorte da vida. E acredito que são regras importantes para uma mudança. Muitas vezes num campo de futebol, numa arquibancada, nós falamos coisas, expressões que não falamos na nossa casa, com nossos amigos, no ambiente corporativo. Por que no futebol permite? São mudanças que podem refletir na forma de se comportar”, afirmou.
Ao lado de Alisson e Casemiro, Danilo pode formar contra o Marrocos o trio de jogadores brasileiros que participou das estreias da Seleção em 2018, 2022 e 2026. Entre cobranças, memória de lesões e expectativa por um novo papel, o defensor chega ao Mundial afirmando estar pronto para contribuir em campo e no ambiente interno da equipe.



